Economia

Economia

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


O Globo e a questão nordestina

Desde a fundação, O Globo assumiu sua vocação nacional, dentro da qual nunca deixou de se interessar por toda questão importante em qualquer ponto do território nacional. Ora, há sessenta anos, quando surgiu este jornal, infelizmente, tal como hoje, o Nordeste exibia problemas a demandarem a atenção e a busca de soluções por parte, não só dos governos locais, mas — e sobretudo — do governo federal. Não iríamos praticar a superficialidade, para não dizer a leviandade, tão comum, de afirmar que nada mudou desde então. Muito plano foi elaborado, inaugurado, louvado e proclamado, muito dinheiro foi investido na região, na verdade a fundo perdido. 1o perdido que, em vários casos, resultou em pura perda. Restou a retórica que os oradores se encarregam de renovar. No entanto — forçoso é reconhecer — alguma coisa se construiu nessas seis décadas. Diversos segmentos do Nordeste ingressaram no ritmo de desenvolvimento, quer consideremos certas zonas rurais através de projetos de irrigação e recuperação da terra e de expressivas realizações empresariais, quer nos refiramos s áreas de industrialização, algumas ostentando já ativa participação na produção interna e na pauta de exportações, ou à expansão urbana, bem refletida em algumas capitais. Não mencionamos aqui o crescimento indiscutível dos serviços essenciais de abastecimento de água e esgotos sanitários, o notável incremento dos benefícios modernos da energia elétrica, do telefone, do gás para cozinha, a implantação de uma rede básica de rodovias que tornaram intercomunicável toda essa imensa porção da terra brasileira. Assinalemos esse aspecto otimista em nome da verdade.

Mas, lamentavelmente e imperdoavelmente, uns tantos dos mais graves problemas persistem. Imperdoável, porque o dinheiro já aplicado daria para solucioná-los. E vergonhoso o que houve de desperdício em favorecimentos, intermediações, desvios. Portanto, torna-se inadmissível podermos reproduzir, hoje, como perfeitamente atuais, as expressões que publicávamos em 1976, na edição de 30 de maio, ao lançar as conclusões do seminário levado a efeito, em Recife, por O Globo, para debater os problemas do Nordeste.

“O Nordeste”, dizíamos a título de introdução ao trabalho dos eminentes especialistas e homens de governo convocados para o encontro, “não é hoje apenas a seca (mas a seca continua produzindo flagelados); não é também uma região sem estradas e sem luz elétrica; tem indústrias, algumas prósperas e tão eficientes quanto as do Sul; mas o sertão, engolindo 60% da área disponível, ainda vive de uma agricultura e de uma pecuária cultivadas e de modo primitivo e errado; grande parte da faixa litorânea (de terras férteis) é mal distribuída e de baixa produtividade; mas o Nordeste tem petróleo, gás e sais de cloro e potássio, além de cana para fazer álcool e eteno, que podem ser a redenção econômica da região, se as indústrias química e petroquímica forem exploradas em toda a sua potencialidade.

A estrutura do emprego denota o subdesenvolvimento relativo: no Nordeste 62,5% da população economicamente ativa trabalham no campo, enquanto no Brasil tomado como um todo estão nessa categoria apenas 44,3%. A indústria nordestina emprega só 10,6% dos indivíduos economicamente ativos; o Brasil, 17,9%. Nos serviços trabalham, no Nordeste, 26,9%, ao passo que, no Brasil, trabalham 37,8%. O Nordeste é assim a maior região-problema do país, onde a explosão urbana (sinal de vitalidade econômica recente) põe a nu, em contrapartida, o desemprego e o subemprego, invisíveis no meio rural, quando a migração empurra as populações para as cidades. Riqueza potencial e pobreza aparente são os contrastes do Nordeste, que discute hoje a melhor maneira de utilizar os recursos dos incentivos fiscais do imposto de renda através do Fundo de Financiamento do Nordeste (Finor), agora administrado pela Sudene, para continuar seu processo de industrialização. Que não pode mais se restringir à indústria de transformação: é preciso que seja também indústria de base, química, mecânica e metalúrgica. O sistema de planejamento econômico nacional precisa se integrar completamente ao planejamento regional do Nordeste, a fim de que não se percam as oportunidades que a região apresenta, com base em suas próprias vocações.”

Naquele momento, a preocupação de O Globo se conduzia no sentido de formalizar uma visão de conjunto da questão nordestina, provocando definitivamente aqueles que podiam e deviam tomar as providências redentoras, tantas e tantas vezes reclamadas por este jornal, ao longo de sua existência. Cuidaram da análise os que entendiam do assunto, dela participando autoridades habilitadas para tomar as decisões. O Globo conclamava essa gente capaz, na convicção de que escrevia, dali em diante, o capítulo conclusivo da questão nordestina. Nesse intervalo — reconhecemos — o emprego do álcool como carburante firmou-se de tal forma que permitiu uma nova fase áurea para a produção canavieira. E esse representa, sem dúvida, um dos mais estimulantes pontos de nossa revisão do Nordeste. Há, também, indícios animadores de alterações na estrutura de empregos.

O que comove, todavia, e o que revolta é que a “seca continue produzindo flagelados”, e que o “Nordeste, conforme acentuávamos, persista como a maior região-problema do país.

Assustador foi termos de lançar em setembro de 1983, pela Rede Globo de Televisão, a campanha “Nordeste Urgente”, para salvar da fome as eternas vítimas das secas.

O Globo quer, daqui para o futuro, celebrar os triunfos da economia e da política no Nordeste. Ninguém pode impedir os flagelos da natureza. Pode prevenir conseqüências, como, por exemplo, executar projetos bem dimensionados (nada de monumentais) de irrigação permanente. Pode, sem dúvida, redirecionar os recursos para as áreas mais necessitadas e de melhor retorno. O Globo espera, hoje, que a questão nordestina passe a ser o registro da vitória do homem sobre a natureza, da vitória do trabalho do homem do Nordeste.

 

Roberto Marinho. Artigo publicado no jornal O Povo. Fortaleza (CE).