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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


O preço da crise

O Globo, 14/01/1984, p. 1. Arquivo / Agência O GloboA vossa presença no Brasil, além de permitir o agradável convívio pessoal que neste momento desfrutamos, tem um significado especial. Evidentemente não interpreto a vossa vinda como uma fuga do “maior frio do século”, em busca do calor que, segundo espero, a amizade e o clima do Brasil lhes devem estar proporcionando.

A visita de congressistas americanos a este país, numa hora de extremas dificuldades para o mundo, no sistema financeiro, na estrutura do comércio internacional e principalmente nas discussões relativas ao equilíbrio estratégico entre as nações democráticas e as socialistas, representa uma demonstração de que a opinião pública dos Estados Unidos está interessada em compreender os problemas e os anseios do Brasil, um país que sempre se mostrou amigo dos Estados Unidos, identificado pelos mesmos ideais de liberdade e respeito à pessoa humana.

Acredito que não escapou à vossa observação o fato de que a atual crise do Brasil tem suas relações com o sistema financeiro mundial e nas suas dificuldades internas, marcadas pela inflação e pela queda do produto nacional. E não começou dentro das nossas fronteiras. Ela teve início em 1982, quando a taxa de juros, na Europa e nos Estados Unidos, se elevou a 21%, acompanhada pela recessão econômica dos países ocidentais, o que provocou violenta baixa nos preços de todas as matérias-primas. Com isso, os serviços da nossa dívida externa se elevaram verticalmente, enquanto os preços dos produtos que exportamos desabaram, reduzindo dramaticamente a nossa receita comercial.

Nessas condições, não somente sofremos um impacto no esforço de desenvolvimento que vínhamos realizando, como também ficamos forçados a reescalonar os nossos compromissos.

Presentemente estamos empenhados em enfrentar essa crise procurando, juntamente com o Fundo Monetário Internacional, encontrar soluções adequadas. Mas é importante ressaltar que as mesmas não podem ser apenas soluções para os credores do Brasil. Tem de constituir também uma solução para o Brasil e os brasileiros. Não podemos incluir, no preço dos compromissos que estamos assumindo, o desemprego e a fome.

Para assegurar a defesa dos direitos inalienáveis da pessoa humana, impõe-se previamente preservar a manutenção da vida humana em termos de dignidade. Agora mesmo o Congresso dos Estados Unidos está analisando um relatório sobre a fome nas camadas mais pobres da população americana, reconhecendo que o fenômeno não é compatível com os ideais do american way of life. Espero que esta mesma sensibilidade se estenda ao povo brasileiro.

Peço desculpas por me ter valido deste momento de fraternidade para abordar essas questões. Confio na vossa compreensão, entendendo que no diálogo entre amigos a franqueza e a sinceridade devem se sobrepor à conveniência do protocolo.

 

Roberto Marinho. O Globo, 14/01/1984