Economia

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


O último desafio

A partir do momento em que o ministro Oscar Correia anunciou que se afastava de suas altas funções pela impossibilidade de administrar o caos resultante da política econômica implantada pelos ministros da Fazenda e do Planejamento, a nação se manteve na expectativa de providências adequadas para a correção dos rumos do governo.

Os presidentes do Senado e da Câmara, após reunião dos líderes e dirigentes dos partidos representados nas duas casas, levaram ao presidente Sarney um comunicado de seu empenho em colaborar na adoção de um plano de emergência, dispondo-se inclusive a assumir a responsabilidade da indicação de nomes para assegurar um amplo entendimento entre os poderes e dos mesmos com a sociedade, restabelecendo-se a credibilidade pública sem a qual nenhum esforço terá êxito.

Surpreendentemente desencadeou-se em certos setores da imprensa uma campanha de defesa, não de uma nova política econômica mais eficaz, e sim da manutenção a qualquer custo da equipe governamental.

Através de versões difundidas por um noticiário coordenado a partir de um róseo gabinete de Brasília, denunciou- se uma imaginária conspiração em que estariam envolvidos membros do governo, centenas de congressistas, dirigentes partidários e até candidatos às próximas eleições, os quais, sem qualquer razão plausível, estariam interessados em “derrubar ministros”, não em “derrubar inflação”.

Os arautos dessa esdrúxula deturpação dos fatos orientaram suas acusações contra O Globo, pela simples circunstância de havermos noticiado, sem maiores comentários, presumíveis substituições propostas por congressistas.

Fazemos o registro dessa canhestra manobra apenas para consigná-la como um sintoma da crise que atinge o país não apenas em seu patrimônio material, como também na preservação dos valores éticos.

O povo brasileiro acha-se atordoado pelo processo inflacionário, com todas as suas conseqüências. Enfrenta a degradação dos serviços públicos essenciais e a deterioração das empresas estatais responsáveis pela infra-estrutura de energia, transportes e comunicações, sofrendo uma insuportável defasagem dos salários em relação ao aumento dos preços. Gera-se um clima de insegurança que se veio agravando com as desavenças até agora mantidas entre os poderes da República, sendo que no âmbito do Executivo persistem conflitos entre o governo da União e os dos Estados e municípios.

Em todos os seus segmentos, a sociedade vem sendo agredida por sucessivos “pacotes” forjados por burocratas no isolamento de seus gabinetes.

O plano mais recente logrou atingir os seus objetivos apenas durante duas semanas. Já em março o governo, que previra uma inflação de 2% em fevereiro, reconhecia sua decepção com a taxa de 3,6%, prometendo uma imediata reversão. Infelizmente verificou-se a elevação da taxa para 6,5%, que foi então explicada como “lamentável acidente de percurso”.

Seguiram-se novos “acidentes” a partir da inflação dc 7,3% em abril, culminando a escalada com o dramático “acidente” de junho: a taxa de 25%.

Em julho, órgãos de imprensa, embora ostensivamente empenhados na permanência da equipe econômica, anunciavam “o atestado de óbito do Plano Verão”. No dia 17 daquele mês as próprias autoridades admitiam “sepultar a idéia de que o Poder Executivo sozinho pode realizar um plano de estabilização”.

Todavia, insistindo em prosseguir sozinha, a equipe burocrática conduzia o país a uma inflação oficial (IPC) de 28,76%, a terceira maior taxa mensal da economia brasileira. Na data da sua divulgação pelo IBGE, a Fundação Getúlio Vargas anunciava que o índice geral de preços do mercado aumentara de 35,91%, sendo que só o índice de preços por atacado aumentara de 40,29% no período.

Na mesma época a imprensa divulgara “o roteiro da burla ao CIP” e que “as empresas já começam a ter aumentos diários de preços”. Economistas de renome anunciavam então em manchetes que “a hiperinflação já começou” e que “o governo camufla a hiperinflação”.

No último dia 30, publicava-se que “a sombra da hiperinflação, aliada ao descrédito na política econômica do governo, paira sobre a cabeça dos empresários que acabam descontando no consumidor”, alertando-se que diversos produtos “sofreram alta de 63,5% em duas semanas”.

Em face desse descalabro, a equipe burocrática passou a prometer o esforço concentrado para assegurar até dezembro o insólito índice mensal de 30%, o que significará, no ano eleitoral em curso, uma inflação no mínimo de 1.200%. Reconhecendo que “se trata de um recorde absoluto”, alega- se que “é melhor que a hiperinflação”.

Enquanto isso, a Seplan informava que o endividamento interno alcançou em junho o montante de 175 bilhões de cruzados novos, sendo que os juros pagos pelo Banco Central superaram a folha de pagamentos do governo mais os encargos sociais.

Comprometida com os interesses da malsinada “ciranda financeira”, a equipe econômica vem assegurando não só a sua manutenção, mas o seu incremento. Fortalece-se assim uma perversa forma de enraizar a inflação, conduzindo-se a poupança e o capital de giro das empresas a se desviar das atividades produtivas para a especulação, instaurando-se a ameaça de um encilhamento de conseqüências imprevisíveis.

Com relação à dívida externa, poucos meses depois de se anunciar a “melhor renegociação já obtida”, admite-se que ingressamos praticamente numa situação de moratória.

Enquanto a política econômica vigente revela essa contínua, ampla e inequívoca demonstração de ineficiência, a iniciativa privada brasileira, atualizada e competitiva, atuando à margem das normas das políticas fiscal e salarial vigentes, passou a desenvolver uma economia informal, estimando-se que o seu montante deve superar duas vezes o PIB da Argentina, propiciando milhões de empregos.

Por seu turno, as entidades sindicais, vendo esses empregos ameaçados pela hiperinflação, suspenderam as greves e vêm alertando o governo para providências de emergência tendentes a evitar no Brasil os saques e desordens ocorridos em países vizinhos.

Desponta assim, em vários setores do país, uma salutar reação que redundou na atitude conciliatória adotada pelo Congresso no seu relacionamento com o presidente.

Sarney tem reiterado que, sem acordo ou compromisso social, as políticas públicas se inviabilizam. Nessas condições, no momento em que a nação se ergue à altura das responsabilidades impostas pelas dimensões da crise, é inadmissível qualquer indecisão.

Torna-se claro que não será viável elaborar e implantar um novo programa econômico-social de caráter estrutural nos últimos meses de um período de governo. Mas será possível a manutenção de condições básicas para se assegurar com ordem as eleições, a posse e a passagem para uma nova administração.

A nação confia, portanto, em que o Executivo proceda a uma reforma em sua linha de ação, destinada fundamentalmente a retomar o diálogo aberto, leal e franco com o Congresso, com os governos estaduais e com a sociedade, a fim de levar a bom termo a tarefa desafiadora.

 

Roberto Marinho. O Globo, 07/08/1989