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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


Os novos rumos do México

O Globo, 04/12/1976, p. 1. Arquivo / Agência O GloboEm meio a uma das mais graves crises de sua história moderna, expressa sobretudo numa situação de quase colapso econômico, o México de repente cobriu-se de esperanças com a posse do novo presidente da República, José Lopes Portillo. E que não vimos aqui apenas um ato de rotineira sucessão presidencial, tanto mais quando processada numa mesma linha partidária e tendo sido o sucessor de Luis Echeverría o seu ministro da Fazenda. Assistimos, sim, a uma transferência de realidades dentro do país acossado por numerosos problemas de conjuntura e de má administração pública. A presidência Lopes Portillo traz uma nítida mensagem de correção e de recuperação do quadro nacional, e todos os setores da vida mexicana puderam sentir a certeza da mudança restauradora no processo agora sacramentado da transmissão do poder.

Na presidência do México acha-se hoje um homem de Estado sob o peso de dramática herança, assim reconhecida interna e internacionalmente. Luis Echeverría não logrou corresponder às expectativas criadas pelas suas qualidades políticas e pessoais, ao assumir o governo há seis anos. Em vez de concentrar-se no tratamento dos problemas mexicanos, preferiu tentar a carreira de líder mundial, talvez com os olhos postos na Secretaria Geral da ONU. Tinha a sensibilidade aguçada para todas as carências e aflições do Terceiro Mundo e ia permitindo, enquanto isso, que nas fronteiras domésticas a situação se deteriorasse. Suas andanças pelos cinco continentes, procurando vender a estadistas das mais diversas ideologias o projeto da Carta de deveres econômicos dos Estados, só fazia dilatar uma ausêncja interna danosa para a vigilante e eficiente condução da coisa pública.

E foi assim que se acumulou o legado de dificuldades hoje entregue aos cuidados do presidente Lopes Portilio: a desvalorização do peso, depois de 22 anos de paridade fixa; um déficit de quase 4 bilhões de dólares no balanço de pagamentos; uma dívida externa de 24 bilhões de dólares; uma inflação anual em termos assustadores; um índice de 30% de desemprego; um imenso déficit orçamentário; a generalizada inquietação dos empresários nacionais e das companhias estrangeiras; a fuga de capitais mexicanos para o exterior; a agitação social no campo, instigada por recentes atos de desapropriação de terras — as mais férteis do país — e pelo desdobramento de uma reforma agrária sem compromissos com a produção e a produtividade; e outros resultados igualmente negativos de uma truncada política de desenvolvimento e de um plano demagógico de distribuição de riquezas.

A crise econômica mundial, a partir de 1973, certamente responde por parte dos desequilíbrios mexicanos, como ocorreu em todos os países em desenvolvimento. Entretanto, na administração Echeverría faltou a necessária tomada de consciência das perturbações sofridas por via externa, para enfrentá-las sob o espírito de uma mobilização nacional. Os mexicanos não foram chamados à união, mas ao descontentamento. A desconfiança dos setores produtivos tomou progressivamente o lugar da antiga confiança no governo.

Para felicidade do grande país latino-americano, porém, o sucessor de Echeverría decidiu seguir justamente o caminho oposto da extroversão desastrosa. O programa de Lopes Portillo é o México, e não as questões terceiro-mundistas. Não lhe interessa conquistar a Secretaria Geral da ONU, e sim a conciliação e a confiabilidade do seu povo, O novo presidente da República olha para dentro da realidade nacional e o faz com uma visão clara e lúcida, sem lentes coloridas ou enganosas. E o seu discurso de posse ganha então as dimensões de um notável documento de franqueza, lealdade e patriotismo, ao retratar, freqüentemente em tons emotivos e dramáticos, a paisagem interna fustigada pelos ventos adversos da economia e da ordem social. Todavia, de modo nenhum a mensagem se queda apenas na visão negativa do ambiente circundante. Lopes Portillo parte do quadro desordenado para concitar as energias e as esperanças do seu povo ao esforço de reconstrução. Suas palavras cheias de fé, podemos afiançar neste testemunho jornalístico, atingiram profundamente a consciência da nação, alteraram o clima, antes reinante no país, de descrença e desânimo.

Lopes Portillo não se limitou a acenar para melhores dias. Soube também ser humilde e pedir. Aos que têm poder ele pediu a ajuda para a solução dos problemas nacionais. Aos estudantes, com a impaciência própria da juventude, pediu que aguardem, confiantes, a renovação da pátria. As mulheres pediu a sua intuição do que é justo. Aos pessimistas, que esquecessem os ressentimentos e a cólera, para não viciarem sua inteligência. Aos que criticam e procuram uma sociedade melhor, pediu ajuda e que lutem mais em favor das grandes causas do que contra os seus semelhantes. Aos trabalhadores do campo e da cidade pediu a nobreza e a dignidade do seu trabalho, sem as quais não se pode construir a pátria. Aos empresários e aos que têm recursos pediu sua capacidade para organizar e criar empregos, de modo a gerar a prosperidade compartilhada e dar função social à riqueza e para terem o direito de pedir a todos que trabalhem, tanto os ricos como os pobres. Aos que reclamam segurança pediu que isso não seja pretexto para ocultar injustiças, passividade e ineficiência ou abandono dos princípios e dos interesses comuns. Aos intelectuais pediu que conciliem sua independência com a necessidade de servir s causas populares, sem humilhar seu talento em face do poder, mas sem submetê-lo ao ódio. Aos marginalizados e desprotegidos, o presidente da República pediu perdão pelo abandono a que têm sido relegados, uma falta da qual todo o país se envergonha. A nova aliança nacional os envolverá na mesma cruzada em busca do direito e da justiça.

No ambiente festivo suscitado pelo acontecimento e pelas cerimônias da posse, o discurso de Lopes Portillo operou como uma clarinada de chamamento às grandes responsabilidades da aliança povo-governo, nos próximos anos. Destaquemos, nesse sentido, os seguintes pontos: “O povo exige de nós” disse Portillo “que não haja falsidades nem demagogias. Pede-nos coerência entre o dever e a atividade revolucionária, entre a palavra e a ação. Quer que enfrentemos, com simplicidade e maturidade, a nossa verdade. Por isso sempre partiremos do correto para alcançar o justo, perseverando em nossa liberdade. Nada de análises triunfalistas ou superficiais, nem de remédios falsos precipitados.” Noutro trecho do discurso: “Para recuperar o controle dos acontecimentos e evitar o naufrágio, será necessário proceder com austeridade — não como uma moda passageira ou uma disciplina temporária sem objetivo fixo, mas como uma forma de vida que permita obter um equilíbrio estável e duradouro.” E a seguir: “O México necessita reafirmar seus valores, sua força e confiança de que seu destino não depende de veleidades monetárias ou de cifras mágicas.”

O que há a fazer, proclama o presidente mexicano, é trabalhar organizadamente, a fim de elevar a produção e orientá-la para os bens e serviços socialmente necessários; ajustar os instrumentos financeiros à mobilização dos recursos produtivos existentes; fortalecer fiscalmente os estados, e estes os municípios, atendendo aos critérios do equilíbrio regional; dar menos ênfase ao controle específico dos preços, e mais atenção ao nivelamento entre os salários e os bens e utilidades que eles podem comprar; reduzir drasticamente os gastos públicos; limitar as importações paralelamente a um esforço da produção para a exportação.

O ministério do presidente Lopes Portillo, segundo a unanimidade dos analistas, além do seu caráter muito mais técnico do que político, tem um conteúdo de moderação desde logo capaz de reconquistar o apoio do setor privado mexicano, do capital estrangeiro intimidado e das demais forças propulsionadoras da economia que viviam arrefecidas e arredias. O restabelecimento da confiança, aliás, já proporciona as suas primeiras demonstrações aqui. O peso começa a melhorar em relação ao dólar. Chegam-nos notícias, por outro lado, do retorno ao país de capitais externos foragidos. Os empresários anunciam um pacto, a ser estabelecido entre eles, para a criação de novos empregos e para assim suavizar um dos mais graves problemas do México de hoje.

A sensação reinante na capital e em todo o México é, m qualquer exagero retórico, a de um esperançoso recomeço de vida. “Cada um tem algo a fazer — disse Portilio.— Que cada um desempenhe um esforço na proporção que lhe corresponda, afastando o temor irracional.’’

No México deste momento o apelo presidencial penetra as camadas mais fundas do ânimo coletivo. Salta aos olhos o espetáculo emocionante da retomada de um brilhante caminho. Um exemplo que há de luzir para o continente inteiro.

Façamos votos para que o presidente Lopes Portilio volte suas vistas para as relações Brasil—México e inicie o desejado processo de ativação do comércio e da cooperação entre os dois países, até aqui quase tão afastados nessa matéria quanto a própria distância geográfica que os separa. Embora tenhamos economias complementares, a balança comercial nos dois sentidos é de apenas 45 milhões de dólares.

Constituindo, somados, a maior população e o maior PIB da América Latina, o Brasil e o México precisam associar as suas potencialidades para a recuperação do tempo perdido. Há muito o que aproveitar em termos do fluxo de comércio, da complementariedade industrial, da transferência tecnológica, do turismo e de outras atividades igualmente dinâmicas.

Já somos unidos no espírito da solidariedade americana e na vocação de desenvolvimento, para o que não nos faltam recursos naturais, materiais e humanos. Também nos une o apego à convivência pacífica dos povos. Resta apenas extrair dessa coincidência dividendos de integração e colaboração, não só em função dos nossos respectivos interesses nacionais, mas no interesse da própria América Latina como um todo.

A circunstância mesma da crise econômica mexicana torna-se fator de maior aproximação com o Brasil. Desde que o país se volta agora inteiramente para a solução dos seus problemas de inflação, recessão, déficit cambial, endividamento externo etc., a troca de experiências tende a beneficiar os esforços de ambos os países para a superação de dificuldades em vários aspectos semelhantes.

Produtor de petróleo em ascensão, candidato a significativa posição exportadora no futuro próximo, o México poderá oferecer-nos uma parceria por esse motivo ainda mais destacável, e merecedora de tratamento especial por parte da nossa política externa.

 

Roberto Marinho. O Globo, 04/12/1976