Religião

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre questões religiosas, líderes espirituais como Dom Helder Câmara e o papa João Paulo II, Teologia da Libertação e a questão da fé nos países socialistas.


Os procurados

O Globo, 03/04/1972, p. 1. Arquivo / Agência O GloboA Cúria Metropolitana de São Paulo emitiu um comunicado, assinado por Dom Benedito Vieira, vigário geral e bispo auxiliar, com o objetivo de revidar o artigo em que condenamos uma publicação feita no semanário O São Paulo, cujos termos nos pareceram injuriosos à imagem de Cristo.

Alega Dom Benedito que O Globo teria faltado três vezes à verdade. Primeiro, ao dizer que o referido semanário é órgão oficial da Cúria. Segundo, ao acrescentar que a Cúria teria sido consultada pela reportagem de O Globo sobre o assunto. Terceiro, ao afirmar que, na publicação em causa, a sagrada figura de Cristo está representada como a de um terrorista procurado pela polícia.

Quando aludimos àquele semanário como órgão oficial, referíamo-nos ao fato notório de se tratar de um órgão em que são publicadas as matérias de natureza oficial da Cúria, circunstância que o identifica com o pensamento eclesiástico. E tudo isso foi confirmado pelo próprio bispo auxiliar, em seu comunicado, ao reconhecer que ali são publicadas as matérias assinadas “pelo Senhor Arcebispo ou pelos que lhe fazem às vezes” e que as mesmas “têm caráter oficial”, aduzindo que se trata de “um jornal preocupado em ser fiel ao pensamento da Igreja”.

Quando dissemos que a Cúria fora consultada, também o fazíamos devidamente fundamentados, pois a nossa reportagem recolhera, no Palácio Pio XII, declarações de Dom Lucas Moreira Neves, assessor direto do arcebispo, o qual teceu elogios à publicação, esclarecendo que os autores eram dois seminaristas que se haviam inspirado em um cartaz semelhante e de origem norte-americana.

Finalmente, quanto à interpretação que demos à composição gráfica, não atinamos como seria possível dar outro sentido a uma página onde surge a imagem de Cristo, encimada pelo título “PROCURADO”, aparecendo logo abaixo dizeres semelhantes àqueles com que a opinião pública costuma ser informada pelas autoridades policiais a respeito das características de criminosos em fuga.

Poderíamos talvez aceitar, em respeito à palavra de Dom Benedito, que os autores da publicação desconhecem que cartazes iguais a esse estão sendo distribuídos por todo o país, alertando a população contra os terroristas responsáveis por raptos, roubos e assassínios. Assim, ignorando o fato, O São Paulo não estaria conscientemente objetivando confundir a figura de Cristo com a desse tipo de criminosos.

Mas uma coisa é inegável: o cartaz apresenta Cristo como um elemento perigoso, acusado de crimes e que teria fugido à ação das autoridades da época, pois o título da publicação não dá margem a dúvidas: “PROCURADO”.

E Dom Benedito há de convir em que, pior ainda do que acusar Cristo de marginal ou terrorista, é dizer que Ele foi procurado, o que implicaria afirmar que Ele teria fugido. A verdade em que todos nós, católicos, acreditamos, é que Cristo jamais fugiu. Ele sabia o que iria ocorrer: “Sabeis que daqui a dois dias se há de celebrar a Páscoa e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado” (Mateus, 26,1). Por isso mesmo, Ele sofreu por antecipação, na terrível noite de agonia, no Horto das Oliveiras, quando chegou, no auge da angústia, a indagar do Pai se não seria possível afastar aquele cálice de amargura. Mas não fugiu. Não precisou ser procurado. Ele próprio, humildemente, procurou a Paixão.

Nessas condições, não é admissível que um jornal “preocupado em ser fiel ao pensamento da Igreja”, como diz Dom Benedito, venha deturpar a figura de Cristo, apresentando-o como um foragido, isto é, um procurado.

Ele é que nos está procurando a todos nós, jornalistas ou padres, jovens ou velhos, cada vez que O renegamos. E isso quando se pretende apontá-lo como malfeitor, repetindo a profecia dos Evangelhos: “Digo-vos que se há de cumprir de mim esta Escritura: Será contado entre os malfeitores” (Lucas 22,37).

O comunicado da Cúria, ao final, nos acusa de pretender enfraquecer a Igreja. Mas a verdade é bem outra, pois os fatos estão aí a apontar os reais responsáveis. Desde 1967, estamos recebendo de milhares de católicos, leitores deste jornal, manifestações de inquietação em face de estarrece- dores pronunciamentos de autoridades eclesiásticas. Assim é que, em 1 de março de 1967, ouvimos um bispo do Nordeste louvar “as virtudes evangélicas de Fidel Castro” e a “coragem da pequena Cuba”, pedindo “a Deus que me dê, e ao povo, a coragem de imitá-la”. No primeiro semestre de 1968, um sacerdote pregou a conveniência de “se dissolverem as forças armadas”, criando-se “tribunais de exceção”. Tal pronunciamento, em 15 de junho de 1968, foi assim analisado por outro padre: “O documento consiste num julgamento, à luz do Evangelho, das estruturas do poder político.” Em 20 do mesmo mês, um ministro de Deus dizia que “precisamos de grupos rebeldes para a revolução que a Igreja está pregando”. Em 13 de julho, líamos a seguinte declaração de um bispo de São Paulo: “A Igreja está para o que der e vier. A saída é a Populorum progressio, que admite a luta armada contra a tirania.”

Todos esses pronunciamentos se somaram às manifestações de minorias ativistas, convulcionando o país. Perguntamos, então, a Dom Benedito: foi para objetivos dessa natureza que Cristo procurou a Paixão, através do seu supremo sacrifício, do qual nasceu a Igreja?

Não precisamos aguardar a sua resposta porque, no último dia 31, o cardeal Gabriel Garrone, prefeito da Congregação para a Educação Católica, pronunciou-se, em nome do Vaticano, afirmando: “A atuação política, além de ser uma solução extrema, é perigosa e inapropriada para a Igreja. A Igreja não é uma instituição humana.’’

Podemos concluir que os verdadeiros procurados são todos esses padres que se deixaram empolgar pela paixão da popularidade, esquecendo a autêntica Paixão. O resultado é que cada vez mais o povo se ressente. As pessoas não vão aos templos à procura de ideologias econômicas ou sociais; vão em busca daquela mensagem de Salvação, daquela dimensão de mistério e de fé, indispensáveis à vida do espírito. E, quando não as encontram nas igrejas, passam a procurá-las nos ritos mágicos das encruzilhadas e das praias, onde a cada dia, por isso mesmo, vemos enfileirar-se um número maior de velas.

O Globo não se conforma com a crise que está atingindo a Igreja no Brasil. Consideramos que, ainda mais importante que o desenvolvimento econômico do país, é o seu reencontro com o Cristo.

Nascemos sob o signo da cruz e não podemos nos perder da fé, sem risco de comprometer o nosso próprio destino. Por isso mesmo, estamos decididos a colocar toda nossa organização jornalística a serviço da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no esforço comum de restabelecer nos templos e no seio da família católica — da família brasileira, em sua quase unanimidade — a paz de que necessitamos para a tranqüila construção do nosso futuro e para desarmar os espíritos que ainda estão gerando desassossegos e injustiças, entre nós.

Não vemos a Igreja apenas com respeito. Vemo-la com fé. Consideramos que muito tempo foi perdido discutindo-se religião. E hora de recomeçarmos a praticá-la.

 

Roberto Marinho. O Globo, 03/04/1972