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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


Pelos mares dos vikings

O Globo, 11/08/1991, p. 7. Arquivo / Agência O GloboPara quebrar a voluntária rotina de confinamento na redação de O Globo, no meu gabinete de trabalho na Rede Globo e em tantas outras atividades que constituem, afinal, o encanto de minha vida, era necessário que eu buscasse algo de realmente extraordinário, que me fizesse ver um mundo diferente.

Não tendo condições de participar de grandes feitos, quis pelo menos ser testemunha, juntamente com tantos outros, de um verdadeiro prodígio que somente a natureza é capaz de fazer.

Foi meu amigo Cláudio Bietolini quem me sugeriu assistir, com as nossas esposas e sua filha, ao fenômeno conhecido pelo nome de “o sol da meia-noite”, ao Norte da Noruega, já no Círculo Polar Ártico. E espetáculo que transcende tudo quanto de belo tenho visto. E momento de magia e de mistério, que parece envolver o homem na eternidade.

Saí do Rio no superboeing 747-400, da Lufthansa. E o que há de mais moderno na tecnologia aplicada à aeronáutica. Durante onze horas, essa máquina fabulosa vai tomar conta de minha vida, atravessando oceanos, montanhas e continentes até o aeroporto de Frankfurt, em uma viagem que honrou, em matéria de conforto, de tranquilidade e até mesmo de requinte as melhores tradições da aviação e dos pilotos alemães.

Nesse estado de euforia e depois de algum tempo de espera, pegamos um outro avião, para finalmente chegarmos ao nosso destino, o aeroporto de Oslo. Como qualquer outro passageiro, fomos tranqüilamente procurar nossas malas na esteira rolante. Por mais que a esteira rolasse, porém, uma das principais malas de nossa excursão recusava-se, teimosamente, a aparecer.

Esse tão simples acidente de viagem, que se vai tornando incomodamente rotineiro, passou a envenenar as nossas vidas. Por mais que demonstrássemos otimismo e despreocupação, de vez em quando alguém vinha com a insopitável indagação:

— Será que o diabo dessa mala vai aparecer a tempo de podermos seguir viagem?

Era evidente a hipocrisia dos que nos tentavam tranqüilizar. Depois do jantar, e sempre à espera do “milagre”, subimos ao quarto do acabrunhado dono da mala e o que ele encontrou, em cima da mesa, foi uma mensagem timbrada com a palavra urgent, em inglês... Mas com o texto todo escrito em norueguês!

Descemos desabaladamente as escadas e pedimos à linda e sorridente jovem da recepção que nos traduzisse a mensagem. E que não nos ocultasse a verdade.

Diante de tanta aflição conjunta, ela se manteve imperturbavelmente bela e serena. Afinal, sentenciou:

— Está tudo bem. Dentro de uma hora, a mala estará no hotel.

E dentro de rigorosamente uma hora, a mala aventureira foi devolvida e carregada em triunfo. Já podíamos, afinal, retomar serenamente o nosso caminho em direção ao Círculo Polar.

De avião em avião, que iam diminuindo de tamanho como os cada vez menores sanduíches de bordo, chegamos primeiro a Tromso (é assim mesmo que se escreve) e, finalmente, a Kirkenes. Depois de conferir, cuidadosamente, o número de malas e constatar com alívio que todas haviam chegado, saímos para fazer um passeio de carro pelos confins do mundo.

Apesar de nossos relógios marcarem nove e meia da noite, o céu de Kirkenes permanecia indiferente ao passar do tempo. Mantinha-se alto e suave, de um azul delicado e luminoso. A beleza da paisagem nada tinha de monumental. Era antes discreta, recolhida ao silêncio dos pequenos montes e dos lagos puríssimos.

A certa altura do passeio, o motorista parou o carro ao lado de um galpão de madeira. Dali em diante, não era permitido passar. Estávamos na fronteira da Noruega com a União Soviética. Parecia abandonada. Ao lado, as bandeiras dos dois países eram levemente acarinhadas pelo vento delicado e já quase frio.

O motorista nos informou que a fronteira não estava completamente abandonada.

— Há um guarda que costuma ficar por aqui.

Alguém do nosso grupo ficou exultante.

— Então vamos ouvi-lo!

E lá fomos, repórteres que somos, ao encontro do guarda solitário. O que vimos, então, foi um soldado com a camisa aberta ao peito, mangas arregaçadas, quase descomposto. Era a própria imagem do que se está passando na outrora poderosa União Soviética. O guarda só se aprumou, arrumando o uniforme, quando o convidamos para ser fotografado conosco.

Na suave claridade da noite polar e como um perdido na vasta e silenciosa paisagem, o guarda ouviu com atenção, falou com parcimônia e sorriu com simpatia, ao se despedir de nós. E lá o deixamos, enquanto as duas bandeiras nos acenavam, batidas pelos ventos da democracia.

No pequenino porto de Kirkenes, embarcamos no Midnatsol, iniciando a viagem que nos levaria ao encontro do “sol da meia-noite”, para vivermos alguns dos mais deslumbrantes momentos de nossas vidas.

Era já quase meia-noite e o sol ainda reluzia acima do mar, perto da linha do horizonte. A natureza precipitava todos os seus ritmos de transformação. Em segundos, ela nos revelava cores e matizes de luz que nenhum de nós poderia ter sequer imaginado.

O ciclo da natureza se interrompe. A noite não chega, embora o sol desapareça por alguns minutos por trás do mar. E então passamos do mais suave crepúsculo para o mais exuberante amanhecer — um prodígio 4ue a natureza opera em dez minutos e que só se repetirá daqui a um ano.

Mas não somos nós apenas que estamos aturdidos. As gaivotas deixam seu ritmo sereno de vôo e passam a bater desesperadamente as asas. Em cada mergulho, trazem nos bicos pequenos peixes que, em cardumes aflitos, se aproximam descuidadamente da superfície.

Em um outro pedaço de terra, que parece ter emergido naquele instante, um grupo de pescadores tenta pegar a maior quantidade possível de presas, desorientadas por aquele súbito amanhecer.

Pescadores e gaivotas deram-nos a impressão de querer se beneficiar daqueles instantes de verdadeiro milagre — a multiplicação dos peixes desnorteados pela onipresença da luz.

Com o sol da meia-noite ainda a brilhar em nossas retinas, contornamos o Nordkapp e fomos deixando para trás o Círculo Polar Ártico.

A viagem do Midnatsol está se aproximando do fim. O pequeno navio cumpriu a sua missão de estesia, levando ao mesmo tempo, aos mais escondidos recantos do mar da Noruega, os seus serviços postais e de transporte comunitário.

Deixamos a Noruega, mas também a levamos conosco, definitivamente incorporada às mais enriquecedoras experiências de nossas vidas. Ninguém poderá esquecer a beleza monumental de suas paisagens, que parecem ter sido trabalhadas pela força dos gigantes e, ao mesmo tempo, pela delicadeza de fadas e deuses mitológicos.

A Noruega torna-se inesquecível também ou principalmente por tudo quanto ela e seu povo nos ensinaram em termos de convivência civilizada; de respeito aos direitos do indivíduo e aos deveres do cidadão; de uma sorridente e amorosa relação com a vida; de um país, enfim, que atingiu uma completa modernidade por ter sabido estabelecer uma perfeita harmonia entre o desenvolvimento material e a sua enorme riqueza espiritual.

Roberto Marinho. O Globo, 11/08/1991