Brasil

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Posse e credibilidade

O Globo, 17/02/1985, p. 1. Arquivo / Agência O GloboA nação perdeu a festa que esperava. Mas ganhou definitivamente a confiança no Congresso e na estabilidade das instituições democráticas.

Na angústia que aturdiu o país na madrugada do dia 15 ocorreu um fato novo, de conseqüências indeléveis: ao invés de consultas a comandos militares como era usual nas crises dos últimos anos, consultou-se simplesmente a Constituição. Consumou-se a mudança fundamental: persiste a segurança, garantida pelas forças armadas; porém, acima de tudo, temos a lei.

Foi alto o preço pago. A figura política que até hoje mais simpatias despertou no povo brasileiro, renovando e consubstanciando esperanças que pareciam perdidas, esteve com a vida ameaçada. E enquanto se temia por seu destino, difundia-se uma tensa preocupação com a sorte do novo regime que se instaurava. Em poucas horas, porém, prevaleceu a consciência histórica de que o período de arbítrio está encerrado.

José Sarney, vice-presidente eleito, tomou posse. Não para cumprir uma formalidade. Mas para governar efetivamente, já.

Há impaciência em todos os setores e regiões do país com relação ao cumprimento dos compromissos assumidos pela Nova República. Não se pode esperar pelo pleno restabelecimento do presidente Tancredo Neves, inclusive porque a maneira mais adequada de se respeitar o comando que a nação lhe confiou é dar início à execução de suas diretrizes. Não estamos mais na época em que se podia interpretar como “traição” ao presidente o fato de o vice- presidente dedicar-se integralmente às suas atribuições constitucionais.

Os discursos de posse dos diversos ministros confirmaram de um modo geral os rumos anunciados por Tancredo Neves. Em seus pronunciamentos, os três ministros militares afirmaram o propósito de orientar a sua atuação de acordo com “os textos constitucionais republicanos”, destacando- se a declaração do general Leônidas Pires Gonçalves de que a missão das forças armadas é a de “garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem”.

Francisco Dornelles empenhar-se-á em “atingir a uni- cidade orçamentária”, visando ao controle global das contas públicas. Prometeu recuperar as estruturas patrimoniais das empresas privadas, combater a inflação em todas as linhas de ação da Fazenda, ressaltando que “o comércio exterior é o instrumento básico a ser utilizado para remover o estrangulamento externo”.

Nesse mesmo sentido, Olavo Setúbal preconizou uma nova “diplomacia de resultados”, baseada na consciência do “esgotamento das soluções internacionais da ordem econômica de Bretton Woods”, devendo concretizar-se por “uma vigorosa atuação nas instituições em que houver interesses diretos para o Brasil”, de modo que nos acordos comerciais não mais estaremos submissos às “tomadas de decisões desses foros”.

Isso significa que a política de exportação do país, especialmente a do café e do açúcar, que deverá ser orientada pelo ministro Roberto Gusmão, em consonância com os demais ministérios da área econômica, sofrerá uma modificação profunda, tal como foi anunciada pelo novo titular do MIC.

Antônio Carlos Magalhães deixou claro que o desenvolvimento da infra-estrutura de telecomunicação do país será posto a serviço dos programas de educação, saúde, controle das safras, acompanhamento dos preços, bem como da segurança e defesa das nossas fronteiras e das nossas reservas naturais, agrícolas e minerais.

Em síntese, as promessas foram reiteradas. Resta cumpri-las.

Confia a nação em que os novos governantes não percam tempo renovando críticas aos erros passados, pois os mesmos são sobejamente conhecidos. Para corrigi-los é que se implantou a Nova República.

A partir de hoje, o governo consolida a sua credibilidade ou começa a perdê-la.

Roberto Marinho. O Globo, 17/03/1985