Imprensa e comunicação

Imprensa e comunicação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


Reiteração de compromisso

O Globo, 09/08/1990, p. 1. Arquivo / Agência O GloboA Constituição de 1988 afirma ser livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.

Mas as leis não nos ensinam a exercer a liberdade. É na experiência e na reflexão que detetamos o erro e a ilusão da liberdade absoluta, que não tem lugar na vida em sociedade. E o tempo que nos mostra a sutil diferença entre liberdade e licenciosidade — e a bem mais nítida distinção que separa arrogância e interesses menores do sentimento de responsabilidade social que legitima o direito conquistado.

É hora de a televisão brasileira — por decisão própria, como deve ser no regime democrático — olhar para si mesma e perguntar-se se, a partir da promulgação da Carta, tem reagido de maneira responsável à ausência de qualquer forma de censura do Estado.          Há evidências de que não.

Esboça-se uma tendência em que as armas dignas de serem empregadas — a criatividade artística aliada ao dinamismo empresarial — estão cedendo lugar a apelos de nível inaceitável em veículos de comunicação que têm entrada franca em todas as casas e acesso a espectadores de todas as idades.

Desde a sua fundação, há 25 anos, a TV Globo vem procurando pautar seu comportamento por uma definição severa de seus deveres em face da coletividade. De outra forma, não teria ela atingido índices de audiência que a colocaram entre os maiores veículos de comunicação de massa do mundo; a incontestável aprovação de dezenas de milhões de espectadores é a melhor prova do acerto de critérios adotados desde o primeiro dia: a busca incessante da qualidade, o desejo permanente de renovação e, sempre, o respeito pelo público.

São muitas as provas de reconhecimento internacional dos frutos desse trabalho. Simultaneamente, os brasileiros são testemunhas de que a TV Globo, a par de produzir entretenimento e informação, preocupa-se em exercer papel educativo e didático, com iniciativas cujo valor não se mede por índices de audiência, e, sempre que necessário, mobiliza- se intensamente na defesa de causas de evidente interesse social.

Por tudo isso — e também porque sabemos que nenhum esforço humano, mesmo gratificado pelo êxito, é imune ao erro — acreditamos ter suficiente autoridade moral para fazer o diagnóstico e propor uma retomada de curso.

            Não há lugar em nossos dias para um puritanismo vitoriano; muito menos incumbe à televisão falsear a realidade, apresentando dela uma imagem depurada de seus conflitos e crises. Não vamos educar nossos filhos — e netos — mentindo-lhes sobre o mundo, que começam a conhecer em grande parte através da televisão. Mas a atualização quanto aos costumes e o repúdio à hipocrisia não são passa- portes para a licenciosidade e o grand guignol. Acima de tudo, não há realismo algum em desprezar os valores morais sobre os quais construímos nossa vida em comum.

O fim da censura estatal fez mais do que eliminar as barreiras à criatividade e à expressão do pensamento; ele também impôs aos meios de comunicação o dever de estabelecerem seus próprios limites. Não há mais censura — mas o tribunal da opinião pública nunca entra em recesso. A liberdade que não se controla será domada por sua própria desgraça, dizia Shakespeare na Comédia de erros, e essa advertência secular permanece válida.

Reafirmo, pessoalmente, e em nome de meus companheiros de trabalho, nosso compromisso de dar ao Brasil uma televisão que proporcione bom divertimento e seja boa companhia, moralmente saudável e movida por um otimismo que no fecha os olhos à realidade. Em suma, um compromisso de continuidade com a trajetória de obstinado empenho no sentido do aperfeiçoamento crescente de nossa programação, cuja qualidade se tornou um padrão exemplar, não apenas para os nossos concorrentes, mas para a crítica dos mais desenvolvidos núcleos de comunicação do mundo.

            Fraternalmente, proponho o mesmo caminho a todos os que têm sobre os ombros responsabilidades iguais às nossas.

 

Roberto Marinho. O Globo, 09/08/1990