Religião

Religião

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre questões religiosas, líderes espirituais como Dom Helder Câmara e o papa João Paulo II, Teologia da Libertação e a questão da fé nos países socialistas.


O padre Hélder

O Globo, 07/04/1968, p .1. Arquivo / Agência O GloboQuebro uma rotina dos editoriais de primeira página de O Globo. Pretendo, assim, caracterizar não apenas meu interesse pessoal na solução de um problema que se agrava, mas o dos leitores deste jornal, pela mensagem que representa hoje a simples menção do nome desse franzino e infatigável trabalhador, que prefere chamar-se modestamente de padre, para quantos sofrem física ou moralmente neste país.

E essa é a homenagem que presto ao homem que estimo com o maior afeto, ao pastor que admiro com reverência e ao atuante social de quem divirjo com respeito.

Prenderam-me a D. Hélder laços antigos, que remontam ao início de sua obra nesta Arquidiocese do Rio. Aqui, nesse clima das repercussões nevrálgicas do organismo nacional, se desenvolveu em plenitude sua vocação em prol dos desamparados, trabalho que acompanhei de perto. Embora não concordando com a fórmula por ele elaborada para a solução do problema das favelas, fui eu que o levei ao presidente Café Filho, junto a quem iria pleitear, com êxito, os meios para a realização do seu projeto.

Jamais esqueceremos quanto nos honrava, em nosso aniversário de fundação, sua participação como celebrante da missa gratulatória e quanto nos comoviam suas palavras carinhosas, marcadas de generosidade e de estímulo.

Várias vezes divergimos, discutimos, sobre os seus pronunciamentos públicos. Chegávamos invariavelmente a um acordo, que nascia da procura de uma formulação mais apropriada, inspirados tanto ele quanto nós pelos mesmos propósitos de servir à comunidade.

Nossa amizade cresceu a tal ponto que D. Hélder é o padrinho do meu último filho.

Mesmo após sua transferência para Recife e Olinda, tanto confiava nessa amizade que me ofereci ao presidente Castello Branco para visitar D. Hélder e tentar desfazer a atmosfera de incompreensão que se desenvolvia entre o arcebispo e as autoridades militares regionais, missão que o grande chefe do governo da revolução preferiu desempenhar pessoalmente.

Compreendo seus sentimentos veementes diante das injustiças que ainda marcam certos aspectos da vida nessa parte do Brasil. Estarão, todavia, tais manifestações — não evidentemente a obra social —, em sua forma ou estilo ou em sua intensidade, temperadas por aquela dose de prudência que é legítimo esperar de um pastor tão carregado de responsabilidades perante não só a Igreja, mas toda a nação? Não teriam algumas delas sido tão inoportunas e até mesmo aberrantes que justificassem os perfis deformados que têm sido desenhados de sua figura?

Parece-me — e anseio que esta minha palavra ecoe como um apelo na grande alma de padre Hélder — que lhe tem faltado, nestes dias, o senso de medida, que só engrandeceria sua nobre missão, sem em nada diminuir-lhe a atualidade. Mesmo desejando sinceramente a aceleração do processo de participação social no desenvolvimento econômico, não podemos acreditar que D. Hélder pretenda, como suas últimas declarações parecem preconizar, incitar o povo ao desespero improdutivo ou a uma revolta cujo fruto, s vitoriosa, seria perdido para os piores inimigos de nossas tradições, de nosso espírito de família e afinal da própria Igreja. As reformas que ele deseja devem ser conquistadas dentro do regime democrático.

 

Roberto Marinho. O Globo, 27/04/1968