Brasil

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Resposta e exemplo

As investigações realizadas pela Marinha a propósito do naufrágio do Bateau Mouche IV chegam ao Judiciário marcadas pela isenção com que foram realizadas.

De fato, o indiciamento de sete oficiais superiores, dois intermediários e um praça, por responsabilidade direta ou indireta no acidente, é prova suficiente de que se buscou a verdade — e, uma vez apurados os fatores, os encarregados pelos dois inquéritos não hesitaram em levá-los à conclusão necessária.

Assim deveria ser, como rotina, em todos os casos em que uma instituição militar tem pela frente o doloroso dever de investigar ações ou omissões de seus próprios membros.

Por que, então, merece o ministério da Marinha o agradecido aplauso da sociedade?

Porque, na verdade, nem sempre é assim. E quase tradição em muitas corporações, e não apenas militares, a prevalência do espírito de classe — seja por simples coleguismo, seja pelo convencimento de que o erro de alguns compromete a boa imagem de todos.

O respeito à lei não pode ser subordinado ao companheirismo; e a imagem de uma organização só pode sair engrandecida quando ela toma a iniciativa de limpar a própria casa. Não é a existência de maçãs podres que contamina o cesto, mas a decisão de não jogá-las fora.

No entanto, a lamentável tradição existe. No Brasil e em outros países: o fenômeno é da natureza humana, não desta ou daquela cultura. Essa constatação não apenas permite que se defina como notável o comportamento da Marinha no episódio do Bateau Mouche: ela exige que se faça dele motivo de reflexão. Existe hoje no país a sensação de que vivemos num clima de impunidade. Isto é fator de desestímulo, de desilusão. As conclusões dos inquéritos conduzidos pelo I Distrito Naval têm o valor singular de uma resposta a essa sensação. E sua importância se prolongará no tempo, na medida que se transforme em exemplo.

 

Roberto Marinho. O Globo, 10/3/1988