Economia

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


Sem retorno

O presidente Collor assumiu o governo com o país enfrentando uma inflação de 100% ao mês, tendendo a ultrapassar a taxa do ano anterior, de 1.000%; com os serviços públicos essenciais paralisados e uma deterioração acelerada da infra-estrutura de energia, transporte e comunicação.

Perdiam os salários diariamente o seu valor, enquanto a ciranda financeira garantia aos especuladores uma rentabilidade superior à ascensão inflacionária. Os empresários eram obrigados a aplicar seu capital de giro nos títulos oficiais, que rendiam 3% ao dia; e a economia popular ia se refugiar em cadernetas de poupança para não se desfazer na hiperinflação.

Adiavam-se investimentos e a produção só se mantinha porque os custos eram compensados pelos baixos salários e pelo aumento diário das taxas de câmbio que possibilitavam a exportação. Dessa maneira, acumulavam-se saldos na balança comercial que, de um lado, intensificavam a inflação, obrigando o governo a emitir para adquirir as divisas e, de outro lado, viabilizavam o pagamento dos juros da dívida externa, que eram os mais altos do mercado, sob a alegação de que não vinham sendo pagos. E, quando surgiam atrasos, renovavam-se empréstimos que nunca deram entrada no país, já que se mantinham na caixa dos credores para saldar os débitos vencidos.

Éramos o único país em que o surto inflacionário não constituía um malefício para todos os agentes econômicos, o que explicava que certos setores privilegiados afirmassem que “a inflação estava sob controle”, e sua manutenção se devia aos gastos públicos ou aos custeios de serviço, envolvendo privilégios, subsídios, reservas de mercado, manobras corporativistas.

No período governamental anterior, quando propúnhamos um entendimento social, baseavamo-nos em que os “pacotes ministeriais” eram meros processos de mistificação, pois a recuperação da economia exige a colaboração de todos os segmentos formadores da renda, inclusive o Estado.

Hoje, os mais diversos setores da opinião pública são favoráveis ao entendimento. Infelizmente, certas minorias, tanto no âmbito empresarial como no sindical, embora não se negando a colaborar, iniciam manobras laterais para resguardar privilégios cujo sacrifício se lhes afigura insuportável. Confiamos em que o governo não se deixe impressionar por tais manobras, nem seja levado a se desviar para polêmicas estéreis.

A grande e silenciosa maioria dos homens de empresa e trabalhadores, bem como os demais segmentos da população, consideram que ainda mais graves do que os sinais de retorno da inflação, a alta dos juros, a escalada das concordatas e a recessão, são os riscos da manutenção do clima de perplexidade sobre os rumos do país.

Essa inquietação não será resolvida por monótonas profecias de futuras baixas na taxa de inflação. Há que se definir com nitidez e transparência um programa objetivo, sem expectativas de alteração a qualquer hora.

Collor não se preocupou em denunciar esse terrível legado. Assumiu pessoalmente a responsabilidade da política econômica, tanto na nomeação de uma equipe não comprometida com os privilégios vigentes, como no risco de efetuar preliminarmente uma radical incisão na ciranda financeira.

Não era possível, naquela hora, elaborar-se uma programação da economia, pois impunha-se acompanhar as reações dos agentes formadores da renda, a fim de serem providenciadas as adaptações indispensáveis.

A nação tinha consciência de que, após os primeiros meses, haveria que se adotar um planejamento a médio e longo prazos, fixando-se objetivos e prioridades. Caso contrário, a manutenção das instituições que levaram à situação anterior voltaria a refletir-se no retorno da inflação e da especulação. E chegado o momento de se decidir o novo modelo que poderá ensejar a retomada do desenvolvimento e a instauração de um sistema sem os vícios por tanto tempo acumulados.

É preciso que todos se convençam da inutilidade de pressões de natureza publicitária ou política para se fugir às responsabilidades, tanto na defesa de legítimos direitos, como no cumprimento de intransferíveis deveres.

O presidente da República tem reiterado que essa é a sua disposição. Líderes representativos da produção e do trabalho estão preparando propostas no mesmo sentido para apresentá-las ao Executivo e ao Congresso.

Nos encontros previstos para o final deste mês deverão ter início as negociações. Não deverá portanto haver mudanças significativas nas medidas em curso e nas equipes responsáveis, desfazendo-se assim as sucessivas versões e insinuações geradas pela desinformação ou por interesses de especulação.

Há que se aguardar sem pânico uma solução para a crise. Não apenas por um gesto de renovação da confiança da nação no governo que elegeu, mas acima de tudo de confiança em si mesma, na sua potencialidade e nos seus valores morais, num avanço sem retorno aos equívocos e distorções do passado.

 

Roberto Marinho. O Globo, 19/11/1990