Imprensa e comunicação

Imprensa e comunicação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


Sessenta anos

O Globo, 29/7/1985, p. 1. Arquivo / Agência O GloboEm 1925, vinte e três dias após ter fundado O Globo, falecia Irineu Marinho, legando-nos a responsabilidade de concretizar os seus ideais. E também a lição de que o jornal não deve ser apenas um instrumento de divulgação de informações mas, acima de tudo, de captação e expressão de anseios nacionais.

Naquela época, reagindo aos vícios da Primeira República, a nação pugnava pelo aperfeiçoamento das instituições representativas, exigindo o voto secreto e a independência do Judiciário. Com 27 milhões de habitantes, dos quais 60% analfabetos, nossas atividades econômicas se restringiam à política de valorização do café, com surtos de industrialização que eram mero efeito da situação cambial.

Enquanto os setores políticos e militares esboçavam movimentos que iriam desaguar na Revolução de 30, os setores artísticos viviam a renovação iniciada com a Semana de Arte Moderna, preconizando-se no âmbito educacional a restauração da universidade não somente como preparação técnica, mas como centro de pesquisa pura, superando preconceitos aqui implantados com a chegada de Dom João VI e reiterados pelos dogmas positivistas do início deste século.

O Globo acompanhou essas revoluções que simultaneamente se desencadeavam, registrou a sua vitória e as desilusões que se seguiram.

Ao aflorar a questão social para cuja solução despontavam as propostas extremistas da esquerda e da direita, jamais nos iludimos com a possibilidade de se defender a pessoa humana, sacrificando-se a sua liberdade e a sua dignidade. Repudiamos o totalitarismo comunista e o fascista, combatendo tanto a Aliança Nacional Libertadora como a Ação Integralista.

Implantada a ditadura do Estado Novo, que pretendia manter o Brasil neutro na Segunda Guerra, jogando com a eventualidade da vitória nazista, empenhamo-nos na causa da democracia. Com o envio da FEB, críamos o Globo Expedicionário, levando aos pracinhas a convicção de que lutavam pelo restabelecimento da liberdade em nosso país. A luta prosseguiu com o Manifesto dos Mineiros, as eleições livres que redundaram no governo Dutra e na Constituição de 46.

Na década de 50, denunciamos a onda de subversão que passou a compactuar com os processos mais perniciosos da corrupção. Criamos pela Rádio Globo uma nova forma de comunicação nacional, estabelecendo um estado de consciência que acabaria pondo fim ao tristemente famoso “mar de lama”.

No governo Kubitschek, permanecemos na oposição, embora propiciando a devida cobertura à realização das metas, sem dar quartel aos desmandos inflacionários.

Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada. Quando a nossa redação foi invadida por tropas anti-revolucionárias, mantivemo-nos firmes em nossa posição, solidários com o povo brasileiro cujas marchas se espalhavam por todas as capitais do país.

Reconhecemos o mérito das realizações dos governos revolucionários, tendo em vista que há vinte anos éramos a quadragésima nona economia mundial, com uma população de 80 milhões de pessoas e uma renda per capita de 900 dólares; e somos hoje a oitava, com uma população de 130 milhões e uma renda média per capita de 2.500 dólares. Mas fomos os primeiros a exigir a alternância do poder, considerando a abertura política não como um ato de graça, mas como uma demonstração de senso de oportunidade histórica e de respeito aos ideais das gerações que consolidaram a Independência e implantaram a República.

Combatemos as manobras para se coibir nos comícios as tentativas espúrias de se transformar o processo eleitoral num litígio judicial, proclamando que afinal se realizou neste país uma eleição direta, sem urnas. Empenhamo-nos enfim por deixar claro que a legitimidade da eleição de Tancredo Neves e José Sarney não foi conferida somente por sua forma jurídica, mas antes de tudo por sua autenticidade política.

Na década de 50, advertimo-nos de que, com o desenvolvimento da eletrônica, a imprensa iria atingir novas dimensões, pelo que envidamos esforços para proporcionar às Organizações Globo as condições que ora nos permitem falar diariamente a cerca de noventa milhões de brasileiros, através de jornal, rádio e televisão, levando-lhes a imagem do mundo de hoje e, bem assim, levar a imagem do Brasil de hoje a mais de cem países com os diversos programas que exportamos.

Em contato com a maioria da população do país, não podíamos deixar de dedicar uma parcela ponderável de nossas atividades a objetivos educacionais, despertando a consciência nacional para resguardar as obras de arte e os testemunhos fundamentais da nossa história.

Tem sido essa a posição tradicional de O Globo, considerando que o jornalista, na colheita dos fatos, assume um compromisso com os seus leitores, mediante o qual a imprensa não somente se constitui na primeira frente de defesa dos seus direitos políticos e sociais, mas deve ainda manter- se a seu lado, compartilhando de seus anseios e zelando pela preservação de suas realizações.

Ao rememorar a trajetória de O Globo, reconhecemos que grande parte da missão está cumprida, pois jamais nos desviamos da linha traçada e o nosso sistema de comunicações apresenta dimensões compatíveis com o crescimento do país, encontrando-nos definitivamente identificados com a opinião nacional.

Mas o nosso trabalho recomeça a cada dia. E o Brasil com que sonhamos e para o qual este jornal foi fundado ainda não se tornou realidade.

O povo brasileiro permanece impaciente e inconformado com as suas condições de vida, aguardando mudanças básicas, repousando as suas esperanças não em soluções ideológicas nem na adoção de novos modelos teóricos, mas em que sejam tomadas medidas práticas e imediatas que restabeleçam o saneamento financeiro e imprimam racionalidade aos programas de investimento, criando-se um clima de austeridade e credibilidade que permita ao Brasil negociar adequadamente os seus compromissos internacionais.

Comemoramos sessenta anos de luta, fazendo do atendimento dessas exigências o objetivo fundamental de nossas atividades.

Roberto Marinho. O Globo, 29/7/1985