Brasil

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Sofrimentos e anseios comuns

O Globo, 23/9/1984, p. 1. Arquivo / Agência O GloboNo maior comício da nossa história, que reuniu recentemente na Praça da Candelária um milhão de pessoas, o orador mais aplaudido foi o advogado Sobral Pinto. Suas palavras constituíram um preito de louvor às forças armadas, reafirmando que no Brasil não há distinção entre militares e civis. A inflação que agrava as condições de vida de comerciários, servidores públicos ou industriais é a mesma cujos pungentes efeitos são suportados pelas famílias de oficiais.

Também são idênticos os seus anseios de desenvolvimento econômico e social, abertura política e implantação do regime democrático. Todos participam dos mesmos problemas e esperanças. Por conseguinte, acima de quaisquer divergências, impõe-se a união do país na conquista dos seus objetivos permanentes. A farda não é uma fronteira entre classes, mas simboliza, juntamente com a bandeira e o hino nacionais, a pátria comum pela qual os sacrifícios e trabalhos se justificam.

O silêncio em que a imensa multidão ouviu aquela mensagem e a vibração com que foi consagrada pelo apoio popular representaram uma demonstração inequívoca de que o país não enfrenta riscos de subversão ou luta interna. Evidentemente não estamos livres de tentativas de provocação ou manobras de minorias. Basta lembrar que naquela ocasião houve um início de incêndio que despertou suspeitas de trama para estabelecer confusão ou pânico. De outro lado, os enormes estandartes vermelhos, com insígnias e dizeres de movimentos comunistas, erguidos bem acima do mar de camisas e bandeiras verde-amarelas, para poderem ser devidamente fotografados, patenteavam o esforço de marginais que, sem capacidade de mobilização, utilizavam-se daquele artifício para se confundir com o povo. A verdade porém é que tais ardis de embuçados da direita ou exibicionistas da esquerda perderam qualquer significação ante o extraordinário comportamento da massa popular.

Neste momento em que no alto comando do Exército, simultaneamente com o que ocorre na Marinha e na Aeronáutica, revela-se o cuidado de “uma avaliação da atual conjuntura política”, há que se reconhecer que nenhum episódio ou acontecimento pode ser estimado em suas exatas dimensões se não for projetado sobre aquela demonstração de apreço e confiança que as forças armadas receberam no comício da Candelária: E de se presumir que os comandos militares estejam conscientes desse fato quando se constata, em seus comunicados, a preocupação de reafirmar junto à opinião pública o “empenho de resguardar o cumprimento do projeto de abertura política do governo”.

Com referência à utilização de “difamações e ofensas pessoais”, torna-se indispensável recordar que o exagero retórico de crítica a governantes e políticos teve início no comício de Salvador, patrocinado pelo PDS. No comício de Goiânia, organizado pela Aliança Democrática, a violência de linguagem atingiu também um tom exacerbado, o que provocou, por parte de Tancredo Neves, uma recomendação pública de moderação.

Cabe a propósito observar que no mesmo dia em que o candidato da Aliança Democrática reiterava que a maior preocupação do país é a de construir o futuro, sem revanchismos, deixando o passado ao exame dos historiadores, o presidente Figueiredo, em pronunciamento na televisão, fazia uma afirmativa semelhante, renovando o seu inabalável convencimento de que a democracia é a única trilha a seguir, para a salvação da nossa pátria.

As notas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica tranqüilizaram definitivamente a nação ao consignarem que, ao término das reuniões havidas, reiterou-se o propósito de se manterem as forças armadas na inarredável determinação de permanecer no desempenho de suas atribuições, eximindo-se de atividades partidárias.

Não há, portanto, envolvimento militar com qualquer candidatura à sucessão presidencial. Cumpre somente aos políticos, com serenidade e honestidade, ouvir o povo e saber respeitar a sua vontade soberana.

 

Roberto Marinho. O Globo, 23/9/1984