Imprensa e comunicação

Imprensa e comunicação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


Televisão de hoje e do futuro

Veja — O que representa a Rede Globo de televisão hoje em dia para o Brasil, em penetração, na “unidade nacional” de que fala Walter Clark? Em peso político, o que ela significa?

Roberto Marinho — Não conheço exatamente as palavras que Walter Clark teria usado na citação mencionada. Mesmo assim, tenho a certeza de que, na condição de delegado meu na direção da Rede Globo, em linhas gerais ele terá expressado aquilo que penso a respeito: procuramos fazer com que ela seja, de fato, um poderoso instrumento de consolidação da unidade nacional. Atingindo praticamente todo o território do país, acredito ser evidente a contribuição da Rede Globo para a intensificação da difusão e do intercâmbio daqueles conceitos e dados de natureza cultural, social e moral — sem falar na informação, pura e simples — que constituem a base do desenvolvimento nacional em todos os campos e em todos os níveis.

Veja — Ao que se sabe, a sua participação criativa na televisão seria pequena. O sr. poderia historiar essa delegação de poderes a um grupo de jovens profissionais vindos de ramos variados?

Roberto Marinho — A TV Globo existe há onze anos, e há onze anos ocupa respeitável parcela do meu tempo e das minhas preocupações. Desse esforço participam muitos profissionais — são centenas, na verdade, muitos dos quais realmente jovens e vindos de variados tipos de atividades. Devo dizer que é uma equipe que tem revelado excepcional dedicação e invulgar talento, não só na criação como em todas as tarefas ligadas à produção e apresentação de nossos programas.

Veja — Qual o seu papel dentro da televisão? Em várias conferências, o sr. se declarou um homem de imprensa, que só faz um jornal “para fazer o melhor jornal”. A que se deve a sua passagem ao campo das telecomunicações?

Roberto Marinho — Sou, de fato, um homem de jornal — e tenho nisso meu maior motivo de orgulho profissional. E sempre me esforcei para fazer de O Globo o melhor jornal possível. Minhas atividades no campo das telecomunicações, no entanto, não significam uma mudança de rumo. Pelo contrário, eu as encaro como um desdobramento natural. Juntos numa mesma organização, um jornal, emissoras de rádio e estações de televisão não representam dispersão mas, muito pelo contrário, uma soma, já que são, no campo das comunicações, atividades perfeitamente coerentes e complementares.

Veja — O superintendente de programação da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira, diz que o futuro da tevê é o jornalismo. Para o sr. qual é o futuro do jornalismo?

Roberto Marinho — Há na pergunta um certo jogo de palavras cuja tentação é preciso evitar. O futuro do jornalismo é se aperfeiçoar cada vez mais: não só a sua função social é progressivamente mais importante, como ele a cada dia dispõe de recursos tecnológicos que lhe possibilitam exercer essa função com grau crescente de sofisticação e rapidez. No momento, por sinal, estamos montando um complexo industrial cuja implantação representará uma verdadeira revolução gráfica em O Globo.

Veja — O que o sr. acha da programação da Globo é a ideal?

Roberto Marinho — Não considero a programação da Globo ideal, graças a Deus. Creio que o momento em que os responsáveis por qualquer empreendimento humano se declaram completamente satisfeitos com o seu desempenho, esse é o momento do início da decadência. Não, a programação da TV Globo não é a ideal. E tão boa quanto podemos fazê-la, e sempre procuramos fazê-la melhor.

Roberto Marinho. Entrevista à revista Veja, 20/9/1976