Brasil

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Trégua para a transição

O Globo, 23/06/1989, p. 1. Arquivo / Agência O GloboA antecipação do plebiscito previsto para 1993, sugerida por Jânio Quadros, serviu para evidenciar o absurdo das propostas de emendas constitucionais ora em estudo no Congresso, visando à implantação imediata do parlamentarismo.

Como bem observou o ex-presidente, a ambiguidade do regime estabelecido pela nova Carta não deverá ser corrigida por conchavos entre partidos, mas só poderá ser decidida pelo povo.

Quaisquer tentativas de mudança do sistema de governo, empreendidas no âmbito do Congresso, cinco meses antes das eleições presidenciais, serão interpretadas como manobras para se fugir ao pronunciamento inexorável das urnas.

Nesse sentido, a mais lúcida análise do artigo de Jânio foi a do jornalista Carlos Castello Branco, esclarecendo dúvidas despertadas na confusa atmosfera de Brasília, pela enérgica advertência contida na argumentação em que se fundamentou a proposta.

São irrespondíveis os raciocínios expostos pelo ex-presidente demonstrando que confrontos estéreis entre o Executivo e o Legislativo têm sido a causa primordial do fracasso das sucessivas políticas adotadas para se estancar a série de crises que vêm afligindo o país nos últimos trinta anos. Estão na origem da desagregação social e econômica que redundou no regime de 64. E tornaram inócuos todos os pacotes e pactos surgidos a partir de 85.

Faltou apenas o esclarecimento de que debates e divergências — normais e indispensáveis em qualquer democracia — tornaram-se perniciosos porque não se travaram em torno de programas e sim, basicamente, de disputas por vantagens na partilha de verbas ou de cargos.

Cabe acrescentar que na proposta formulada por Jânio o aspecto mais importante é o que destaca a necessidade de se “assegurar, a qualquer custo, a realização da ida às urnas marcada para novembro”, alertando para os riscos que hoje despontam para a estabilização da ordem pública, em consequência do agravamento da crise econômica e social do país.

Impõe-se por consequência uma trégua no confronto entre poderes e na disputa em que se empenham os partidos políticos, da situação ou da oposição, no sentido de se criarem condições para um reajustamento do governo, no epílogo da transição democrática.

Os obstáculos que se delineiam para a nação revestem- se de extrema gravidade. Temos de superá-los.

O centenário da proclamação da República merece e exige uma comemoração autêntica: a realização de eleições diretas e tranquilas para a presidência, num clima de fé em que a partir de agora nada deterá a marcha do país para uma era de democracia, desenvolvimento e justiça.

 

Roberto Marinho. O Globo, 23/06/1989