Em 1924, após graves problemas de saúde, Irineu Marinho embarcou para a Europa, em busca de tratamento e repouso. Com a eclosão da Revolução Tenentista de São Paulo, a viagem tornou-se também uma espécie de autoexílio. A volta só aconteceria no ano seguinte, quando o jornalista recebeu a notícia de que havia perdido o jornal A Noite.


Trechos do livro "Irineu Marinho - Imprensa e Cidade"

Irineu Marinho com a família, após a cirurgia na Casa de Saúde Pedro Ernesto. 04/1924. Arquivo/Memória GloboA cirurgia

No começo de 1924 será submetido ao que então se chamava “cirurgia da pleura”, procedimento efetuado na Casa de Saúde Dr. Pedro Ernesto [...]. Foi uma dura provação. Por aqueles anos, as manobras efetuadas na pleura estavam associadas ao tratamento da tuberculose, para o que, como se sabe, não havia remédios, recomendando-se, tradicionalmente, o repouso em regiões serranas, de clima ameno. A intervenção, em alguns casos, podia ser uma alternativa, mas consistia em procedimentos dolorosos e com resultados imprevisíveis. [...] A fotografia de Irineu Marinho junto a d. Chica, irmão e filhos, convalescendo na Casa de Saúde, é impressionante: um grupo um tanto assustado e, ao mesmo tempo, aliviado, circunda o paciente, que nitidamente tenta disfarçar a dor.

 

“Deixar-se ficar”

Para Irineu Marinho, o final do ano de 1924 foi marcado por sentimentos conflitantes acerca do seu retorno ao Brasil. Havia muito a ponderar: seu delicado estado de saúde, a situação política do país, mas havia também um certo “deixar-se ficar”, uma aposta implícita em que as coisas se resolveriam por si, a crença, talvez, na palavra de cavalheiros, que fora, afinal, o que celebrara com Geraldo Rocha. O fato é que o processo foi se arrastando, as providências para o retorno sendo adiadas, ainda que Leal da Costa advertisse claramente a Irineu sobre o fato de que Geraldo Rocha, em relação ao jornal A Noite, tomava atitudes prejudiciais à reputação da folha e do seu proprietário “real”.

 

Autoexílio

Houve, é claro, naquela excursão, alguma coisa de um autoexílio decidido por Irineu Marinho. Mas era isso e mais. Suas descrições dos locais, das paisagens, dos estados de ânimo e das circunstâncias físicas e morais com que seguia seu roteiro europeu continham, ao mesmo tempo, o deslumbramento de um turista e o aprendizado do mundo. Seu corpo, suas chagas, sua melancolia não permitiam que Irineu Marinho fosse um turista convencional; mas, por outro lado, seus sentidos adestrados pelo ofício de repórter não lhe permitiram deixar de saborear nada do que lhe era oferecido, revelando um prazer poucas vezes experimentado ao longo da sua existência como jornalista e empresário brasileiro. Havia na postura de Irineu, nos longos relatos de seus processos curativos, como que o desejo de uma depuração não apenas do corpo, mas de sua própria biografia. Foi, nesse sentido, um viajante “clássico”, em busca de um encontro consigo mesmo; e um viajante “moderno”, com o desejo de se arriscar em territórios ainda pouco trilhados.

Carvalho, Maria Alice Rezende de. Irineu Marinho - Imprensa e Cidade. Editora Globo / Memória Globo, 2012.