Filho de imigrantes portugueses, Irineu Marinho mostrou sua vocação para o jornalismo ainda na escola, nos jornais estudantis de Niterói. Aos 16, ingressou na imprensa da então capital federal. Colaborou com alguns dos diários mais importantes do Rio de Janeiro antes de fundar seu próprio jornal, A Noite, em 1911.


Trechos do livro "Irineu Marinho - Imprensa e Cidade"

Irineu Marinho, década de 1910. Arquivo/Memória GloboImprensa estudantil

Não sendo destituído de boas relações, pois tivera seu padrinho de batismo escolhido entre membros bem colocados da colônia portuguesa na então província do Rio de Janeiro, não fez uso desse bônus ao chegar a hora de se profissionalizar. Ainda estudante, foi abrindo seu caminho como editor de jornais estudantis em Niterói e quebrando o círculo reprodutivo da sua localização social. A partir daí, a atração pela capital da República, a que terá acesso precocemente, trabalhando como revisor em diversos jornais, o levará a encontrar o lugar onde era possível ver e ouvir o moderno em funcionamento – as oficinas dos jornais. Nunca mais se desprenderá daquele lugar, formando-se ao ritmo da construção do jornalismo brasileiro.

O Ensaio x A União

O episódio – em si, pouco importante – revela a transição iniciada por Irineu Marinho nos primeiros anos da década de 1890. Saltara de O Ensaio, jornalzinho estudantil, para as páginas de O Fluminense, epicentro da imprensa de Niterói, e buscava inserção profissional no Rio de Janeiro, onde já vinha prestando alguns serviços de revisão para o Diário de Notícias. Todos os dias, portanto, realizava uma travessia física e simbólica entre as margens da Guanabara. A baía separava, à época, o “jornalista niteroiense” Irineu Marinho do estudante Irineu, suplente de revisor; a amável capital do estado do Rio de Janeiro, da fervente capital federal; os grêmios literários e clubes cívicos de Niterói, dos cafés da Ouvidor; o jornal O Fluminense, em cuja redação se nutriam aprendizes das letras, do Diário de Notícias, detentor de um dos maiores plantéis de intelectuais do país; e, sobretudo, o ambiente abafado que caracterizava o familismo português, do horizonte aberto em que desenhará seu futuro.

Na imprensa da capital

Irineu Marinho chegava à imprensa naquele momento. E, para ele, aos quinze anos de idade, pertencer à imprensa significava agir como um repórter, e não como um letrado. Desde então, a frequência aos “cafés em pé” – e tudo o que derivava disso: o ritmo, a postura corporal, a substituição da conversa por comentários, a pilhéria – se colará de tal forma à imagem pública de Irineu Marinho, que, ao falarem dele, seus amigos recorrerão aos mesmos adjetivos de que se valeu, primeiro, Félix Pacheco:  “Irineu Marinho, esguio e afanoso repórter [...], sempre apressado, mal se detendo à beira de uma roda para sorver, de corrida, um café entre duas observações mordazes”.

Diário de Notícias

Quando Irineu Marinho iniciou sua aproximação com o Diário de Notícias, em 1891, a redação do jornal ainda guardava o calor da batalha antimonárquica; e Rui Barbosa, um de seus diretores, experimentava a glória de ter redigido a nova Constituição brasileira. De fato, o Diário de Notícias terá sido dos mais combativos órgãos contra o regime monárquico, reunindo redatores da envergadura de um Lopes Trovão, um Aristides Lobo, um Medeiros e Albuquerque e, maior do que todos, Rui Barbosa. É provável que a experiência de Irineu, muito moço, em um órgão com aquele perfil tenha tido efeitos duradouros na sua trajetória.

Rochinha

Em 1894, um ano após ter sido contratado pela Gazeta de Notícias, Irineu Marinho aceitara proposta do jornalista Manoel de Oliveira Rocha, conhecido como Rochinha, para trabalhar no jornal A Notícia. Rochinha havia iniciado sua carreira na imprensa paulista, primeiro como tipógrafo e depois como repórter nos jornais A Tribuna, em Santos, e O Estado de S. Paulo. Quando conheceu Irineu, já era renomado jornalista da Gazeta de Notícias e, provavelmente, um de seus principais acionistas, tendo passado por quase todos os cargos na empresa. Rochinha sabia tudo o que havia para saber acerca da prática jornalística e, em 1894, fundou o vespertino A Notícia, convidando vários profissionais da Gazeta para trabalhar também no novo jornal. Entre os convidados de Rochinha se encontravam Irineu Marinho, revisor, e Castellar de Carvalho, repórter policial e escriturário faltoso do Tribunal de Contas, que se tornará um dos grandes amigos de Irineu.

Círculo dos Repórteres

Entre 1903 e 1904, o esforço de institucionalização profissional se tornará evidente com a criação do Círculo dos Repórteres – entidade que Irineu ajudou a fundar e de que se tornará secretário. Entre as atividades do Círculo destacou-se a campanha de ajuda às vítimas da seca do Nordeste, uma iniciativa “republicana” da corporação de repórteres, muito divulgada e elogiada por grande número de jornais, casas comerciais, teatros, associações e clubes. A visibilidade que tal campanha conferiu àquele grupo profissional terá sido peça importante na construção da “nova imprensa”; e, um pouco mais tarde, em 1908, a criação da Associação Brasileira de Imprensa – ABI, de que Irineu Marinho também participou, atestará o fortalecimento do setor.

Carvalho, Maria Alice Rezende de. Irineu Marinho - Imprensa e Cidade. Editora Globo / Memória Globo, 2012.