Irineu Marinho esteve, durante toda a vida, ligado a grupos, políticos e movimentos que sonhavam com uma república antioligárquica e um modelo de nação mais inclusiva. Por seu posicionamento político, viu seu jornal ser suspenso em 1914 e enfrentou quatro meses de prisão, em 1922, acusado de apoiar o Movimento Tenentista.


Trechos do livro "Irineu Marinho - Imprensa e Cidade"

Associativismo

A diretoria do Círculo dos Repórteres. Da esquerda para a direita: Irineu Marinho, secretário; Osmundo Pimentel, presidente; e Antônio Pinheiro, tesoureiro. O Malho, 1910. Arquivo / Memória GloboUma forma benéfica de manifestação será o reconhecimento social que angariou quando as elites perceberam o raio de abrangência de sua ação organizadora – além das associações ligadas ao jornalismo, Irineu Marinho participou da criação da Associação Protetora dos Pescadores da Ilha do Governador, arrabalde em que morou até 1903; da Liga Antioligárquica, fundada durante a campanha civilista de 1910; da Liga Brasileira pelos Aliados, criada durante a Primeira Grande Guerra; da Liga Brasileira contra o Analfabetismo, em 1916; do Retiro dos Artistas, do Retiro dos Jornalistas, da Liga contra a Tuberculose, entre outras. Mas o efeito mais dramático da clivagem entre o jornalista e as famílias remanescentes da Corte teve curso quando Irineu se encontrava preso na ilha das Cobras.

Por uma república antioligárquica

Irineu Marinho teve trajetória afortunada como empresário, mas politicamente atribulada. Foi perseguido por Hermes da Fonseca, preso por Epitácio Pessoa e partiu para o autoexílio sob a presidência de Artur Bernardes. Defensor de um projeto de nação mais inclusivo, acompanhou os estratos médios urbanos em seus anseios por uma república antioligárquica.

Suspensão de A Noite em 1914

As tratativas para a liberação de A Noite foram intensas e envolveram conversas intermináveis com ministros, com o prefeito do Rio de Janeiro, Bento Ribeiro, com o chefe de polícia e com pessoas influentes no círculo do presidente. Irineu, em todo esse processo, mostrou-se preocupado com o que chamava de “cerco aos políticos”, temendo a situação futura de lhes dever favores e, com isso, comprometer a independência do jornal. A carta de Marques da Silva, em 17 de março, expõe a Irineu os procedimentos que adotara, afirmando que à frente da negociação com os políticos se encontravam apenas o advogado e o maior acionista da empresa – Noêmio e Ricardo Xavier da Silveira –, os quais não se imiscuíam em questões “jornalísticas”, atendo-se às de ordem estritamente administrativa.

Prisão

A prisão de Irineu Marinho, em 5 de julho de 1922, não era esperada, mas previsível. Seu jornal A Noite nascera independente e se mantivera assim durante todos os governos que se sucederam ao ano de sua fundação. Era órgão bastante crítico da dominação oligárquica e se posicionava, sem rodeios, contra uma República que não representava a totalidade da nação. À frente de um jornal com tais características, Irineu Marinho talvez não fosse muito estimado no palácio do Catete.

Irineu Marinho foi preso, como se disse, em 5 de julho de 1922 – dia do levante do forte de Copacabana – e enviado à ilha das Cobras, onde, entre outros desgostos, verá sua saúde piorar muitíssimo. Intuindo que suas cartas talvez fossem censuradas, ou, pelo menos, lidas, antes de serem enviadas a seus destinatários, escreveu imediatamente a d. Chica garantindo-lhe que brevemente seria liberto e teria reconhecida sua inocência, pois “nem mesmo de pregar a revolução pelo jornal podem [me] acusar, pois não há uma palavra nesse sentido impressa na Noite.” A estratégia não foi eficaz – permanecerá na ilha das Cobras por quatro meses. Durante o tempo em que esteve ali, seus correspondentes mais frequentes foram d. Chica e Antônio Leal da Costa, vice-presidente de A Noite, tornado seu confidente. As cartas enviadas a d. Chica eram, a um só tempo, íntimas e contidas, como revela o bilhete que lhe enviou cinco dias após ter sido preso: “Chica, estou bem, embora muitíssimo saudoso. Necessito apenas de uma toalha de banho. Até qualquer dia destes. Um abraço do teu Marinho”.

Carvalho, Maria Alice Rezende de. Irineu Marinho - Imprensa e Cidade. Editora Globo / Memória Globo, 2012.