Apaixonado pela comunicação e pelas novidades tecnológicas, Irineu Marinho investiu na então incipiente indústria cinematográfica. Em 1917, com o jornal A Noite já consolidado, fundou a Veritas, produtora dos filmes A Quadrilha do Esqueleto, Rosa que desfolha (ou O Dominó Misterioso), Ambição Castigada e Um senhor de Posição.


Trechos do livro "Irineu Marinho - Imprensa e Cidade"

Películas espetaculares

Irineu Marinho se moveu em um contexto de transição, sendo, ele mesmo, figura dessa passagem. Mantinha valores compatíveis com o século XIX – que se expressam, por exemplo, no convencionalismo da sua correspondência –, investindo, simultaneamente, em um mundo novo, de máquinas e artefatos que não guardam aura, característicos da nascente sociedade de massa. A própria imprensa popular a que aderiu é exemplo disso – uma imprensa, como ele dizia, voltada para o Zé-Povo. Mas a melhor ilustração do seu engajamento no futuro é, talvez, a criação, em 1917, da Veritas Film, produtora cinematográfica responsável pela elaboração de “películas espetaculares sobre crimes e outros sintomas da vida carioca”. 

 

Desenho de Raul Pederneiras para o filme A Quadrilha do Esqueleto, da Veritas Film. Acervo Alice Gonzaga / CinédiaA Quadrilha do Esqueleto

A Veritas Film foi concebida como um negócio do ascendente ramo do entretenimento e passará à história do cinema brasileiro como produtora do celebrado A quadrilha do Esqueleto, seu filme de estreia e um dos primeiros thrillers policiais do Brasil. Não se tratava, pois, de produção amadorística. Apresentado, nas páginas do jornal A Noite, como “magnífica produção com que estreia a fábrica brasileira Veritas – cada cena, cada quadro, cada pormenor desta sensacional fita policial é o resultado de uma observação muito demorada e inteligente do bas fond do Rio de Janeiro”, o filme contém uma cena de fuga nos cabos do bondinho do Pão de Açúcar que o notabilizou, tecnicamente, entre críticos e historiadores do cinema. A película foi exibida em outubro de 1917 nos cinemas Avenida (avenida Central, atual Rio Branco) e Ideal (rua da Carioca), em nove sessões diárias, cumprindo, em seguida, impressionante itinerário em cinemas de bairros.

 

O fim da Veritas

No início do ano de 1917, já sócio-proprietário do jornal A Noite, Irineu Marinho divergiu de Marques da Silva quanto aos rumos a serem dados aos negócios que tinham em comum. Marques da Silva insistia em que assumissem o prejuízo de trinta contos de réis, resultado de um investimento equivocado na produtora do fotógrafo português Antônio Leal – a deficitária Leal-Film –, e deixassem o ramo da produção cinematográfica. Irineu, contudo, objetou que estavam no início de um empreendimento potencialmente lucrativo e que “tinha absoluta confiança na prosperidade futura da sociedade”, arrastando Marques da Silva a criar com ele, sem mais a participação de Antônio Leal, a Veritas Film. Um ano depois, em carta de maio de 1918, o que se lê é um lamuriento Marques da Silva propondo a liquidação da firma Marques, Marinho e Cia., proprietária do jornal A Noite, sob a alegação de que era impossível, em meio à crise econômica mundial, manterem as vultosas retiradas de capital do vespertino para cobrir prejuízos da produtora. Os termos do rompimento são fixados da seguinte forma: Irineu Marinho se torna proprietário exclusivo de A Noite e a Veritas Film é extinta.

Carvalho, Maria Alice Rezende de. Irineu Marinho - Imprensa e Cidade. Editora Globo / Memória Globo, 2012.