Roberto Marinho queria um jornal semelhante aos melhores do mundo. Entusiasmado com tecnologia, investia na modernização de equipamentos e instalações, mas sem ostentação. Gostava de qualidade. Essa exigência  o levou  a transformar O Globo, a partir dos anos 1970, num periódico matutino, com circulação aos domingos, com suplementos e novas seções. Ao lado dele, um interlocutor capaz de cumprir a missão, Evandro Carlos de Andrade. O colaborador ajudou Roberto Marinho a concretizar os seus sonhos empresariais e jornalísticos.


Reforma e modernização

O jornalista Evandro Carlos de Andrade. Arquivo /Agência O GloboNa década de 1970, O Globo prosseguiu com a sua modernização tecnológica e administrativa. Em dezembro de 1971, o jornalista Evandro Carlos de Andrade assumiu a redação e, em seguida, fez uma série de mudanças editoriais que levaram o jornal à liderança absoluta do mercado no Rio de Janeiro.

Foi a partir da postura rigorosa do jornalista Evandro Carlos de Andrade que O Globo dirigiu seus passos para um futuro sólido. Ele ingressou no jornal dia 1º de dezembro de 1971 e logo se tornou diretor de redação. Sob o comando dele, a redação passou por uma ampla reforma. As editorias foram reorganizadas, aumentou o número de repórteres e redatores, os salários foram reformulados e as notícias tornaram-se mais diversificadas e abrangentes. Evandro Carlos de Andrade recordava o incentivo que teve de Roberto Marinho para fazer as mudanças que o jornal precisava: “ O dr. Roberto me deu um apoio extraordinário. Porque, na verdade, quando você entra numa empresa dessas, existe uma estrutura resistente. E essa estrutura não era só a redação. Era um complexo de resistência. Mas o apoio do dr. Roberto foi espetacular. Nunca me deu uma diretriz, ‘faz isso, faz aquilo’...O poder era dele. Ele era o dono do jornal. Então, acho que ele queria que eu fosse percebendo as coisas como deveriam ser feitas, de acordo com o objetivo dele, para fazer um grande jornal. Assim, começamos a mexer. Primeiro, estabelecemos um padrão gráfico, que não tinha, e  fomos criando projetos.  Fizemos o que tinha que ser feito para tornar O Globo o jornal que é hoje.”

Evandro Carlos de Andrade costumava atribuir muitas mudanças no jornal à parceria com Henrique Caban, chefe da redação. O caderno Vestibular e as coberturas do carnaval, por exemplo, foram ideias do companheiro de jornada.  Evandro também tinha a missão de  preparar o terreno para o combate que O Globo iniciaria, em seguida, contra seu principal concorrente, o Jornal do Brasil. Esta luta pela liderança incluiu a criação da edição de domingo, a renovação da gráfica, o uso da cor no jornal e a criação de novos suplementos. Na mesma época, também foi criada a sucursal de O Globo em Recife, Pernambuco.

Henrique Caban descreve o cenário do Globo no início dos anos 1970 e explica a necessidade de mudança: “O  Globo que nós encontramos  era um jornal conservador, retrógrado, um Globo que o Roberto Marinho não queria mais. Ele procurava uma pessoa que fizesse essa reforma.”

João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo e presidente do Conselho Editorial, conviveu pouco na redação de O Globo antes da entrada de Evandro. Mas  lembra a insatisfação do pai com a qualidade do jornal e da vontade dele de encontrar um profissional que estimulasse a equipe: “O Evandro trocou bastante gente e sempre foi um obstinado por qualidade e pela precisão da informação. Ao mesmo tempo, também construiu as bases do jornal matutino. Mas eu acho que a grande mudança foi rejuvenescer a redação e conseguir fazer a passagem para um jornal mais leve, ligeiro e com mais conteúdo ”.

“O Evandro sempre foi um obstinado pela qualidade da informação.” (João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo)

Merval Pereira, que foi diretor de redação e hoje é colunista de O Globo, comenta que a relação entre Roberto Marinho e Evandro Carlos de Andrade era de muita confiança, pessoal e profissional, e que o empresário sempre quis tê-lo ao seu lado. “Era uma relação interessante e algumas vezes, conturbada. Evandro chegou a pedir demissão algumas vezes, mas, no fim, chegavam a um acordo.”     

Roberto Marinho deu carta branca a Evandro para mudar a linguagem do jornal. A cada edição, a maneira de noticiar os acontecimentos se tornou mais acessível, explicativa e direta. O ex-secretário de redação, Argeu Afonso, lembra que  Evandro correspondia às expectativas de Roberto Marinho na exigência de um bom texto: “Quando o Evandro chegou em 1972, deslanchou de vez uma linguagem menos rebuscada, sem lantejoulas, mais simples.”

Evandro dizia que as mudanças tinham sido necessárias porque o jornal não tinha método no final dos anos 60 e início de 1970: “Era tumultuado, não tinha padrão gráfico.  Fomos mudando aos poucos. Dividimos o jornal fisicamente por editorias como Política, Cidade, Economia, Internacional, Esporte. Essa foi a forma de organização.”

O vice-presidente das Organizações Globo e presidente da Fundação Roberto Marinho, José Roberto Marinho, que trabalhou após a entrada de Evandro, lembra que a redação era fantástica: “O Globo tinha um timaço. Era uma turma muito preparada, intelectualizada, culta e com experiência. O Evandro tinha uma compreensão do Brasil incrível. Para mim foi bom, porque eu fui subordinado dele muito tempo. De repórter a subchefe de redação”.