Irineu Marinho não se deixou abater pela perda do jornal de maior sucesso da época. Quase 150 dias após deixar a presidência de A Noite, lançou seu novo vespertino, O Globo. 


O novo jornal de Irineu Marinho

Irineu Marinho (o terceiro do lado direito da mesa) e a primeira equipe de O Globo comemoram o lançamento do vespertino. 07/1925. Arquivo/Memória GloboEm 1925, após o retorno de uma viagem à Europa de quase um ano para se recuperar de um problema de saúde, Irineu Marinho renunciou à presidência de A Noite. Antes de viajar, o jornalista - sócio majoritário - tinha feito um acordo com o acionista Geraldo Rocha: vendeu suas ações, em confiança, com a garantia de recomprá-las na volta. A combinação não foi cumprida, e uma assembleia extraordinária de acionistas, liderada por Rocha, alterou os estatutos da Sociedade Anônima e elegeu novos diretores para o jornal.  Irineu é confirmado como presidente da empresa, mas seus poderes são retirados. Inconformado, afastou-se definitivamente do jornal que fundara em 1911.

Mas Irineu Marinho não se deixou abater pela perda do jornal de maior sucesso da época. Quase 150 dias após deixar a presidência de A Noite, lançou seu novo vespertino, O Globo. Em menos de cinco meses, fez de tudo para botar o jornal na praça. Arrumou o local, montou as oficinas e organizou a redação. E não estava sozinho. Trinta e três companheiros ficaram ao lado dele, como Antônio Leal da Costa, Herbert Moses, Eurycles de Mattos,  Manoel Gonçalves, Barros Vidal, Horário Cartier, Costa Ramos, Eurico Matos, Bastos Tigre, Costa Soares, Pereira Rego, João Louzada, Carlos Gonçalves, Eloy Pontes, Henrique Gigante, Brício Filho, Neto Machado, Nelson de Souza, José Maria Pereira, Mário Melo, Sílvio Leal da Costa e Valter Prestes.

A história de O Globo tem um significado especial para a família que o fundou. O vice-presidente das Organizações Globo e presidente do Conselho Editorial, João Roberto Marinho, diz: “O meu avô passou nove meses na Europa e, na volta, o sócio não quis devolver as ações do jornal. Foi aquela perplexidade e ele acabou fundando O Globo. Gastou tudo o que tinha. A solidariedade foi outro fator importante para que a ideia não naufragasse. Vários companheiros de Irineu deixaram A Noite e o acompanharam na criação do novo jornal. São lições interessantes para todos nós. As pessoas indo atrás de uma realização, de ideais e de valores.”        

Além dos profissionais, Irineu Marinho contou com o apoio do filho Roberto que tinha 20 anos. Já nesta época, começava a despontar no futuro dono de O Globo uma percepção especial para descobrir novos talentos. O gaúcho Apparício Torelly, o Barão de Itararé, foi um deles. Desenhista, vereador, jornalista e com rara habilidade para satirizar os políticos corruptos da época, Aporelly, como ficou conhecido em O Globo, foi apresentado a Irineu por Roberto Marinho. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, em agosto de 1990, o jornalista contou o episódio da contratação de Torelly.

Irineu Marinho, fundador do jornal O Globo, sem data. Arquivo Memória Globo. “Meu pai morreu no 25° número de O Globo. Eu estava com 21 anos, era secretário de papai e o acompanhava quando ele estava fundando O Globo. Nesses 25 números, eu fui seu secretário. Foi muito engraçado, porque o Aporelly, talvez o maior humorista que o Brasil já teve, apareceu um dia no Globo. Papai recebeu um cartão com os dizeres Apparício Torelly, humorista. O fato de um sujeito se chamar de humorista já foi meio esquisito para nós, porque humorista não é bem uma profissão. Fui lá e vi o camarada, um tipo completamente inesperado. Perguntei a ele: o senhor é humorista? E ele: ‘Sou sim.’ O senhor teria alguma coisa aí para ser vista? ‘Tenho sim’, ele disse e me deu um livro. Abri por acaso, em qualquer página. Estava escrito: o casamento é uma tragédia em dois atos, civil e religioso. Voltei e disse para o papai - você tem que atender esse camarada, porque o homem é muito engraçado. Então mostrei o livro. Nós achamos muita graça. Foi assim que o Apporelly estreou no Globo.”

Apparício Torelly deixou O Globo após a morte de Irineu Marinho. Em maio de 1926, fundou o próprio jornal: o bem-humorado semanário A Manha. Com a revolução de 1930, concedeu a si mesmo o título de Duque de Itararé, por sua “personalidade de excepcional valor” e “distinção no campo da batalha que não houve”. Tempos depois, como prova de modéstia, rebaixou o título para Barão.