Em outubro de 1954, Roberto Marinho sentou-se à mesa e escreveu na sua Remington a crônica que marcaria o último dia de trabalho na sede antiga de O Globo, na Rua Bittencourt da Silva. Despedida foi publicada na primeira página. No dia seguinte, a redação e as oficinas do jornal foram  transferidas para o novo endereço: Rua Irineu Marinho, 35, centro do Rio de Janeiro. Era o início de processo de modernização, que incluía a aquisição de novos equipamentos gráficos. 


Projeto Aquarius

O maestro Isaac Karabtchevsky rege a Orquestra Sinfônica Brasileira durante a edição do Projeto Aquarius em Brasília, 07/09/1976. Arquivo/Agência O GloboApaixonado por música clássica, Roberto Marinho tinha um carinho especial pelo Projeto Aquarius, lançado em 1972. A ideia surgiu dois anos antes. Reunidos para definir a programação da Orquestra Sinfônica Brasileira para o ano seguinte, o maestro Isaac Karabtchevsky, o pianista Jacques Klein e o então gerente de promoções de O Globo, Péricles de Barros, começaram a preparar estratégias para expandir a programação da orquestra e torná-la acessível ao grande público.

O primeiro concerto foi apresentado no Parque do Flamengo. A então gerente de marketing do projeto, Ana Luiza Marinho, lembra: “O Projeto Aquarius desenvolveu a tecnologia, no Brasil, de espetáculos ao ar livre. Era um mérito. Ninguém fazia, só nós.”

O envolvimento de Roberto Marinho com o Projeto Aquarius ia “até o pescoço”, diz Ana Luiza. O cenógrafo responsável, Abel Gomes, recorda que o desejo do jornalista era levar para o povo um tipo de música pouco divulgada em larga escala. O empresário não interferia no repertório dos concertos. Ficava feliz com cada apresentação, mas era implacável num tipo de deslize: o atraso no horário marcado. Quando a Quinta da Boa Vista já estava cheia, era anunciado: “São 19 horas...” Abel recorda: “Você imagina milhares de pessoas, com suas famílias, em absoluto silêncio. Era um sinal de respeito. O Aquarius era uma congregação de amor maravilhosa. Desde o primeiro prego para montar o cenário até o gran finale, valia a pena o esforço.”  

Fiel ao público, Ana Luiza Marinho conta que a empolgação e a intolerância de Roberto Marinho em relação a atrasos levaram o jornalista a tomar uma atitude intempestiva quando o maestro oficial não apareceu na hora combinada para iniciar uma apresentação do Aquarius. Eram sete da noite e o público lotava a Quinta da Boa Vista: “Nada do Morelembaum (maestro Jacques Morelembaum). Dr. Roberto, aflitíssimo, perguntava: ‘cadê o Morelembaum que não chega ?’ (... ) Ele viu o Mário Tavares, que era maestro da orquestra da TV Globo, e não conversou. Mandou ele reger a orquestra. O concerto começou com o Mário Tavares vestido com um paletó emprestado de um músico e somente, no segundo ato, entrou o Morelembaum.”

Em 1978, cerca de 80 mil pessoas assistiram, na Quinta da Boa Vista, a Quinta Sinfonia de Tchaikowsky, executada pela Orquestra Brasileira sob a regência do maestro Isaac Karabtchevsky. Entre as realizações do Projeto Aquarius estão a ópera Aída em 1986, com o uso pioneiro de legendas eletrônicas, e o espetáculo comemorativo da Independência do Brasil na colina do Ipiranga, em São Paulo, com um público estimado em 600 mil pessoas.

Já foram apresentadas ao público obras de Beethoven, Mahler, Bach, Wagner, Mozart, Vivaldi, Villa-Lobos, Pixinguinha, Ernesto Nazaré, Francisco Mignone, Beatles e muitos outros. Dado o caráter popular dos espetáculos, alguns elementos foram introduzidos para torná-los mais atraentes, como o uso da voz em off de um locutor narrando o espetáculo e de efeitos de luz e fogos de artifício.

Em 2011, o Projeto Aquarius foi apresentado no Complexo do Alemão, um conjunto de favelas do Rio de Janeiro, com a participação da cantora Alcione. O concerto encantou os moradores. Muitos nunca tinham saído do Alemão: “Fazer um concerto de música clássica para pessoas com carências tão grandes não teve preço,” comenta Sheila Roza. No ano seguinte, o Projeto Aquarius fez nova apresentação no Complexo do Alemão, em comemoração aos 40 anos do projeto.

Além das apresentações musicais, o Projeto Aquarius também levou ao público espetáculos de grandes companhias de balé, como o Bolshoi, o American Ballet Theatre e o Ballet Nacional de Cuba.