Irineu Marinho não se deixou abater pela perda do jornal de maior sucesso da época. Quase 150 dias após deixar a presidência de A Noite, lançou seu novo vespertino, O Globo. 


Primeiro editorial

Editorial do 1º número de O Globo, em 29/07/1925.

Coluna Ecos, p. 2

Explica-se o aparecimento deste jornal pelo dever iniludível em que nos vimos de continuar a consagrar-nos, tanto quanto nos consinta a nossa reduzida capacidade, à defesa das causas populares que nos empolgaram e nos dominam há bem mais de duas décadas, dando-nos, sem dúvida, apreciáveis compensações materiais, mas enchendo-nos também de uma satisfação moral sem a qual todos os proventos são apenas mesquinhos. Essa contingência, a que não poderíamos fugir, embora nos bastasse e até sobrasse o que em bem-estar e conforto representavam somas que correspondiam ao trabalho honesto e tenaz de muitos anos, teve, para lançamento de O GLOBO, o concurso da solidariedade eloquente e carinhosa da quase unanimidade de queridos companheiros, destruindo em nosso espírito qualquer hesitação que ainda subsistisse e decidindo-nos a criar outro órgão, continuador das tradições a que o público se habituara e para a manutenção das quais de nada valerão os sacrifícios que nos estiverem reservados.

E foi muito propositadamente que, para a fundação do O GLOBO, aparelhado com instrumentos modernos de trabalho em instalações que tem provocado os louvores gerais, não quisemos que se desse a intervenção de elementos alheios aos nossos recursos próprios, embora constituíssem este patrimônio tão penosamente conquistado. É um penhor da nossa sinceridade; mas é também a garantia da independência com que vamos agir, independência tão ampla quanto o permitam as possibilidades humanas e que nos autoriza desde já a proclamar que este jornal não tem afinidades com governos, não encerra interesses conjugados com os de qualquer empresa, não está ligado a grupos capitalistas ou a plutocratas isolados, - não existirá senão como uma força posta incondicionalmente ao serviço dos interesses gerais, cônscios todos nós, os que nesta casa vamos trabalhar, das responsabilidades decorrentes da atitude que assumimos, mas muito confiantes em que nosso esforço será bem julgado e poderá concorrer, é óbvio que modestissimamente, para o futuro esplêndido a que a nossa Pátria tem direito. IRINEU MARINHO