Os anos 1990 foram marcados por transformações em O Globo. A direção de Jornalismo foi mudada e houve uma importante reforma gráfica do jornal. O Globo permaneceu conquistando prêmios e inaugurou o novo parque gráfico, um moderno complexo industrial que virou cartão-postal do município de Duque de Caxias.


Inovações editoriais

O atual colunista Merval Pereira passou a comandar a redação em 1995, em substituição a Evandro Carlos de Andrade, que havia se tornado diretor de Jornalismo da Globo. Durante os 23 anos em que Evandro esteve à frente do jornal, Merval Pereira trabalhou ao seu lado em diferentes funções, desde repórter a editor-chefe.

Sobre Roberto Marinho, Merval Pereira lembra que o jornalista tinha uma convicção inabalável de suas orientações para o jornal, mas gostava de ouvir a opinião dos diretores. “Várias vezes, em nossas discussões, eu dizia: ‘dr. Roberto o senhor é o dono do jornal, o senhor decide’. E ele dizia: ‘ Não é porque eu sou o dono. Somos companheiros’. Mas ele tinha uma ideia clara de até onde podia ir a polêmica. ”

O espaço para a publicação de opiniões divergentes sobre um mesmo tema começa a ficar mais amplo a partir dessa época. A dinâmica das discussões na redação torna-se mais rica e o jornal ainda mais democrático. A atual colunista de Economia, Miriam Leitão, avalia: “O Globo continua sendo um jornal que tem informação em grande quantidade e dá liberdade de divergir na parte de opinião. Eu escrevia coisas diferentes do que os diretores pensavam e escreviam. O Ali Kamel, que era meu chefe naquele período, por exemplo, tinha uma coluna. Escrevia de duas em duas semanas na página Opinião e na área da discussão sobre a questão do negro. Nós divergíamos radicalmente. Eu não era ameaçada por isso. Pelo contrário, havia um enorme respeito. O Globo tem espaço para isso. Fazemos um jornalismo tecnicamente de boa qualidade e com riqueza de opiniões divergentes.”

O Globo passou por uma série de mudanças nesse período, como o lançamento dos serviços Tempo Real (distribuição de notícias através de rede de computadores), Jornais de Hoje e Globofax da Agência Globo e Globo On line, o primeiro site de notícias das Organizações Globo. Na área editorial, foi significativo o lançamento do jornal Extra, um impresso de cunho mais popular, e a parceria com o jornal Folha de S. Paulo, que deu origem ao Valor Econômico. Em 2001, o jornal adquiriu o Diário Popular, que passou a se chamar Diário de S. Paulo, vendido no fim de 2009.

O investimento em marketing foi intensificado para criar condições de uma maior aproximação com o público.

Com a tendência já apontando para o futuro da informação multimídia, O Globo apostou num treinamento específico para os seus profissionais. Criou o projeto Calandra. Além do jornal, eles aprenderam a trabalhar em internet e a passar flashes para a rádio CBN.

As mudanças no jornal nesse período também incluíram uma função que cuidasse essencialmente de Opinião. O responsável era o jornalista Luiz Garcia, uma espécie de ombudsman, o analista crítico do jornal, que criou normas internas de ética e comportamento dos jornalistas do Globo. Garcia comenta: “Quando criamos os Princípios e Valores de O Globo sabíamos que seria um código que não acabaria com as discussões éticas e editoriais. Os debates são cheios de nuances e áreas e subjetividade. Sempre houve muita discussão na redação sobre as notícias que atraem o público. Somos duas coisas num veículo só. Um instrumento de serviço público, de interesse público, e uma empresa comercial. Não podemos fugir dessa dualidade, temos de fazê-las conviver da melhor forma possível. A gente dá ao leitor aquilo que ele quer em determinado nível, e dá também aquilo que ele acha que não quer e não precisa, mas que é nossa obrigação dar a ele com a mesma importância.”

Merval Pereira conta que outra mudança importante de O Globo, a partir de 1995, foi a entrada de jornalistas de renome vindos do Jornal do Brasil. “Levar o Zózimo para O Globo foi um momento de afirmação para o jornal. Quando eu assumi a direção da redação, levamos o Luiz Fernando Veríssimo, o Zuenir Ventura. O Globo já era  melhor do que o JB há anos. A nossa questão era firmá-lo como o grande jornal de classe média do Rio, mas pegando a elite também que era identificada com o JB.” Hoje, O Globo é um jornal de referência no Brasil.