Os anos 1990 foram marcados por transformações em O Globo. A direção de Jornalismo foi mudada e houve uma importante reforma gráfica do jornal. O Globo permaneceu conquistando prêmios e inaugurou o novo parque gráfico, um moderno complexo industrial que virou cartão-postal do município de Duque de Caxias.


Qualidade e reconhecimento

A reforma gráfica foi um ato de ousadia no formato, na estrutura e exigiu mais qualidade dos profissionais do jornal. Diante da aceitação dos leitores, vieram os reconhecimentos. Na década de 1990, O Globo foi imbatível e conquistou muitos prêmios.

O vice-presidente das Organizações Globo e presidente do Conselho Editorial, João Roberto Marinho, explica como a reforma gráfica foi idealizada: “Pela primeira vez na história de O Globo, fizemos uma mudança em um dia. Estávamos numa época onde todos os jornais tinham a obsessão de fazer textos curtos para proporcionar uma leitura rápida. Não era a nossa tendência. Nós achávamos que não adiantava o jornal querer competir com meios eletrônicos em agilidade, rapidez, concisão de informação porque a televisão sempre faria melhor. Os jornais, ao contrário, precisavam se diferenciar e trazer algo a mais para o leitor.”

Na visão do vice-presidente, as reportagens deveriam ser mais completas e aprofundadas. O leitor poderia não ter tempo para ler tudo de uma só vez. Mas o conteúdo estaria disponível nas páginas do jornal. João Roberto complementa: “Montamos um projeto que reunia duas possibilidades: uma leitura rápida da matéria e outra aprofundada. O leitor decidia. Ou lia a manchete, o olho da matéria, o lead ou o assunto inteiro. Isso diferenciava o jornal. Os textos tinham densidade e mais ângulos de visão sobre um mesmo assunto. O projeto se diferenciou totalmente da tendência que os jornais do Brasil e do mundo estavam indo naquele momento.” 

Casa de grandes jornalistas, O Globo traz uma marca na sua trajetória: a qualidade. Uma exigência de seus diretores, mas, sobretudo, de Roberto Marinho. Pompa não impressionava o dono de jornal. O funcionário tinha mesmo era que mostrar talento. Os prêmios que o jornal conquistou ao longo dos anos foram a prova disso. Ali Kamel conta que, certa vez, Roberto Marinho foi até a redação ver os novos computadores e ele resolveu ciceroneá-lo na visita: “Eu tratando o dr. Roberto como um senhor de idade, resolvi explicar em detalhes e ficava repetindo: ‘Esse sistema editorial é maravilhoso, coisa de primeiro mundo’. Essa frase horrorosa. Mas ficava repetindo: ‘Coisa de primeiro mundo’. Ele  muito atento a tudo, e fomos para a área da  fotografia.  E eu continuei: ‘Olha, dr. Roberto, isso aqui é uma coisa fantástica, é uma coisa de primeiro mundo. O senhor pega o filme, fotografa, põe nessa maquininha aqui, ela revela automaticamente. Depois, entra aqui, amplia, em quatro minutos está a foto. Faz um teste aqui para o dr. Roberto’. Pegou um filme lá do fotógrafo, fez. Aí a foto saiu. Dr. Roberto pegou os óculos de aros bem grossos que ele tinha, pegou a foto e falou assim: ‘Meu filho, tudo aqui pode ser de primeiro mundo, mas o mais importante é a qualidade do fotógrafo, que é de terceiro mundo. Cortaram os pés do delegado e a luz espocou nos olhos do fotografado. Isso é impublicável.”