O final da década de 70 e o início dos anos 80 foram marcantes para O Globo. O povo ainda enfrentava a repressão, mas o Brasil percorria o caminho da democracia. Pelas páginas do jornal, a população tomava conhecimento da abertura politica promovida pelo governo Geisel. Enquanto isso, O Globo encontrava-se cada vez mais perto das comunidades. Inovações surpreendiam o leitor. Redação modernizada, novos suplementos, como os Jornais de Bairro, cor na primeira página e no Segundo Caderno. O Globo se tornava o primeiro diário brasileiro a circular no Natal e no dia primeiro de janeiro. 


Abertura política

O presidente Ernesto Geisel tomou posse em 15 de março de 1974, iniciando uma abertura política controlada, definida por ele mesmo como “lenta, gradual e segura”. O país ainda vivia sob ditadura com casos de tortura e assassinatos, como do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho. Mas a pressão da sociedade por mais liberdade aumentava.  Ao longo do seu mandato, Geisel diminuiu a severa ação da censura sobre os meios de comunicação e garantiu a realização, em novembro do mesmo ano que assumiu, de eleições livres para senadores e deputados. Era o início do processo de abertura política, que Roberto Marinho acompanhou com entusiasmo por meio de O Globo. 

Em março de 1979, o general João Batista Figueiredo assumiu a presidência da República com a tarefa de consolidar a transição democrática. Sua primeira medida nesse sentido foi sancionar, já em agosto, a lei no 6.683, que concedia anistia a todos aqueles que haviam cometido crimes políticos no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979.  O Globo elogiou a lei da anistia, que permitiu a volta de exilados políticos, como Leonel Brizola, Márcio Moreira Alves, Miguel Arraes e Luís Carlos Prestes.

Foi nesse período, em 1979, que O Globo deu um dos grandes furos de reportagem relembra o colunista Merval Pereira. O país da abertura política iniciava as  discussões sobre a anistia. E antes do anúncio oficial do projeto, Merval e o fotógrafo Orlando Brito arriscaram suas cabeças para conseguir uma matéria inédita para o jornal. O colunista rememora: “Nós roubamos o projeto do Petrônio Portela durante uma reunião no gabinete dele. Petrônio abriu a porta para a imprensa tirar fotos. Entraram fotógrafos e repórteres. Ele deixou o texto em cima do sofá. O nosso fotógrafo viu, botou na bolsa junto com os equipamentos. O Petrônio ficou irritadíssimo. Eu liguei para o Evandro e disse: ‘ você sabe aquele documento da anistia que roubaram ? Está comigo. Ele começou a rir e eu perguntei: ‘ Vamos publicar?’ O Evandro era muito animado e respondeu: ‘ Vamos publicar. Vou falar com o dr. Roberto.’ Em entrevista ao Memória Globo, Evandro Carlos de Andrade, comentou, com orgulho: “Foi a manchete da primeira página. O Globo foi exclusivo. Foi um furo absoluto.”

Bastou o governo dar sinais em favor da abertura política para que setores conservadores mais radicais começassem a agir com violência. O Globo  desaprovou os atos terroristas praticados por grupos de direita que tentavam sabotar o processo de redemocratização do país. Já em 1976, ocorreram vários atentados no Rio de Janeiro. O primeiro foi na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro da cidade. Uma bomba explodiu no sétimo andar e destruiu dois banheiros próximos ao gabinete da presidência.

Em 22 de setembro do mesmo ano, o próprio Roberto Marinho seria vítima dos terroristas. Uma bomba explodiu no telhado da sua residência no Cosme Velho, destruindo parte do segundo andar e ferindo um dos empregados da casa.

Nesse mesmo dia, o bispo dom Adriano Hipólito foi sequestrado, espancado e abandonado despido e com o corpo pintado de vermelho num matagal em Jacarepaguá. Seu carro foi levado até as proximidades da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na Glória, e destruído numa explosão. O grupo Aliança Anticomunista Brasileira assumiu a autoria desses atentados.

Uma nova onda de atos terroristas atingiu o país em 1980. Em agosto, uma carta-bomba endereçada ao então presidente nacional da OAB, Eduardo Seabra Fagundes, explodiu na sede da entidade, no Rio, e matou a secretária Lyda Monteiro da Silva, de 59 anos. Uma hora mais tarde, outra bomba era detonada na Câmara dos Vereadores, ferindo seis pessoas.