O final da década de 70 e o início dos anos 80 foram marcantes para O Globo. O povo ainda enfrentava a repressão, mas o Brasil percorria o caminho da democracia. Pelas páginas do jornal, a população tomava conhecimento da abertura politica promovida pelo governo Geisel. Enquanto isso, O Globo encontrava-se cada vez mais perto das comunidades. Inovações surpreendiam o leitor. Redação modernizada, novos suplementos, como os Jornais de Bairro, cor na primeira página e no Segundo Caderno. O Globo se tornava o primeiro diário brasileiro a circular no Natal e no dia primeiro de janeiro. 


Atentado do Riocentro

Na noite de 30 de abril de 1981, durante um espetáculo comemorativo do Dia do Trabalho, realizado no Riocentro, uma bomba explodiu no interior de um automóvel, matando o sargento Guilherme Pereira do Rosário e ferindo o capitão Wilson Luís Chaves Machado. Meia hora depois, outra bomba foi detonada, na casa de força, sem causar nenhuma vítima. O episódio fez parte do lento e gradual período de abertura política, quando comandos terroristas de extrema-direita procuravam impedir o avanço do processo de redemocratização do país.

O então repórter de política de O Globo, Marcelo Pontes, foi o segundo jornalista a chegar ao Riocentro. Ele conta: “Feriado, dez e pouco da noite, eu estava de plantão, me preparando para sair quando alguém avisa que estourou uma bomba no Riocentro e me mandaram para lá. Fui voando. Estava lá o carro destruído, não tinha nem cordinha separando, isolando, tinha um perito olhando com a lanterna, eu cheguei perto para ver e o perito: ‘Sai daqui, sai daqui que tem outra bomba aí’. Eu liguei para a redação, ‘o perito falou isso e isso’. O jornal bancou. Não sei se o jornal tinha informação de outro lugar sobre a segunda bomba, mas o jornal deu a história da segunda bomba. Eu só sei que foi em cima do laço, o show do Milton Nascimento ainda estava rolando. E o Globo publica tudo. “

 No dia seguinte ao atentado, 1o de maio, O Globo exibiu uma pequena chamada no canto inferior da primeira página, noticiando o fato: “Bomba no Riocentro mata sargento e fere capitão”. Contrariando a versão oficial, o jornal informou ainda que outra bomba havia explodido na ocasião, ressaltando que “os funcionários do Riocentro não esclareceram se a bomba foi lançada contra o carro ou se explodiu com o veículo em movimento”. 

No dia 6 de maio, o jornal obteve um furo de reportagem, ao publicar fotos do capitão Wilson, que estava internado no Miguel Couto e isolado por forte esquema de segurança. Os flagrantes foram obtidos por um médico-residente a pedido do então repórter Marcelo Beraba. “ O capitão estava uns cinco dias no hospital. Tinha gente do Exército em tudo o que era lugar. O fotógrafo Paulo Moreira tentava uma forma de furar o bloqueio mas era difícil. Aí, convenci o médico de tirar as fotos. Ele subiu e fez. Nesse dia, tínhamos dois fatos relevantes. As fotos exclusivas e a matéria que dizia: ' Laudo confirma que havia duas bombas no Puma.’ E foi uma festa. Matamos a pau !”

Houve pressão do comando do Exército para que as fotos não saíssem. A decisão ficou por conta do então diretor de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, que garantiu a publicação no alto da primeira página.

Apesar da repercussão, o Inquérito Policial-Militar aberto para investigar as circunstâncias em que as bombas explodiram terminaria por inocentar os dois militares que estavam no Puma, sem que fossem apontados os autores da ação. O caso foi arquivado em agosto de 1981.

Em 1999, O Globo publicou uma série de reportagens decisiva sobre o atentado. As novas investigações derrubaram a versão oficial do crime. O coronel Wilson Machado, antes apontado como vítima da explosão, e o general da reserva Newton Cruz foram indiciados por um novo inquérito policial. Os repórteres Chico Otávio, Ascânio Seleme e Amaury Ribeiro Júnior pesquisaram arquivos, entrevistaram legistas, militares e outras pessoas envolvidas no episódio. O trabalho publicado em várias reportagens até 5 de maio de 2000 valeu aos jornalistas de O Globo o Prêmio Esso de Reportagem. Chico Otávio comenta: “Demos uma contribuição histórica. Derrubamos a versão oficial e mentirosa sobre um dos grandes casos ocorridos na ditadura militar. E esse tipo de prêmio te dá credibilidade e abre portas. O Globo me permitiu isso.”