O final da década de 70 e o início dos anos 80 foram marcantes para O Globo. O povo ainda enfrentava a repressão, mas o Brasil percorria o caminho da democracia. Pelas páginas do jornal, a população tomava conhecimento da abertura politica promovida pelo governo Geisel. Enquanto isso, O Globo encontrava-se cada vez mais perto das comunidades. Inovações surpreendiam o leitor. Redação modernizada, novos suplementos, como os Jornais de Bairro, cor na primeira página e no Segundo Caderno. O Globo se tornava o primeiro diário brasileiro a circular no Natal e no dia primeiro de janeiro. 


Diretas Já

Em março de 1983, o deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) apresentou ao Congresso Nacional uma proposta de emenda à Constituição que previa o restabelecimento de eleições diretas para a Presidência da República em dezembro do ano seguinte. Logo depois, o PMDB, sob a liderança do deputado Ulysses Guimarães, lançou oficialmente uma campanha nacional de apoio à emenda, cujo slogan era “Diretas Já”. O movimento contou com a adesão imediata de outros partidos de oposição, como o PDT, o PT, o PCB e o PCdoB, e de entidades da sociedade civil, como a OAB e a ABI. Durante o ano de 1983, a campanha ganhou força e, no início de 1984, adquiriu proporções desconhecidas na moderna história brasileira.

Em 1984, os quatro meses que antecederam a votação da emenda Dante de Oliveira foram dedicados à organização de comícios, que se realizaram por todo o país. O primeiro, no dia 12 de janeiro, foi em Curitiba e reuniu cerca de 50 mil pessoas. Depois, ocorreram manifestações em outras cidades de diferentes estados brasileiros como Santa Catarina e Salvador. Em janeiro de 1984, o comício na Praça da Sé, em São Paulo,  contou com a presença de mais de 300 mil pessoas. Pouco antes da votação da emenda à Constituição, duas grandes manifestações se realizaram no Rio de Janeiro e em São Paulo, no dia 10 e 16 de abril. A primeira, na Candelária, reuniu um milhão de pessoas e a segunda, no Anhangabaú, cerca de 1 milhão e meio.

Antes do comício da Praça da Sé, no dia 25 de janeiro de 1984, a campanha a favor das eleições diretas já vinha mobilizando, ainda que discretamente, o noticiário de O Globo. O assunto estava presente no noticiário de política e em seções específicas, como a coluna Política. Os principais líderes da oposição, sobretudo do PMDB, como Ulisses Guimarães e Tancredo Neves, eram constantemente entrevistados.

No dia 26 de janeiro, O Globo publicou uma pequena chamada na primeira página: “Comício com artistas leva multidão à Praça da Sé”. A matéria sobre o evento, que ocupou pouco mais de um quarto da página 4, foi circundada por um fio preto. Uma foto mostrava Franco Montoro e Leonel Brizola de braços erguidos, ao lado de Fernando Henrique Cardoso, no encerramento do comício. No dia seguinte, um editorial foi publicado na primeira página, afirmando que a reivindicação por eleições diretas era legítima e que correspondia aos princípios democráticos, mas argumentando que as reformas constitucionais exigiam ponderação e prudência. 

Em abril, foi realizada a manifestação do Rio de Janeiro. Nesse momento, o movimento havia ganhado mais força e o comício da Candelária foi assunto da primeira página já no dia 10, quando o então governador Brizola anunciou que havia tomado todas as providências para garantir a ordem pública. Nesse dia, a página 3 foi toda dedicada ao evento. Trouxe informações sobre o funcionamento dos meios de transporte e sobre o esquema de segurança. Apresentou também algumas estimativas sobre o comparecimento e sobre a ocupação do espaço. No dia seguinte, O Globo noticiou o comício como a maior manifestação política da história do Rio de Janeiro. Uma foto aérea mostrou a multidão ocupando a Avenida Presidente Vargas e a Candelária. O assunto ocupou três páginas internas do noticiário.

No dia 16, O Globo cobriu com as manifestações pelas Diretas em São Paulo e afirmou que a passeata do Anhangabaú tinha superado o comício do Rio em número de manifestantes.

Jornalistas que ainda trabalham em O Globo e outros que passaram pela redação naquela época comentam a cobertura:

“Nós começamos errado. Não demos importância ao comício de São Paulo [da Praça da Sé]. Isso nos marcou como sendo um jornal anti Diretas já. A linha editorial do jornal também era, na melhor das hipóteses, ambígua a esse respeito. Nós só nos recuperamos no comício do Rio. Quando demos uma bela cobertura.” (Luiz Garcia)

“ Tinham manifestações espectaculares. Multidões em algumas grandes cidades, como em São Paulo e no Rio. O Globo não fez o que outros jornais fizeram, que foi pegar carona no marketing dessas eleições. Todos os jornais, e eu como repórter de política, sabiam que não havia a menor chance de aprovação da emenda das Diretas. A gente tinha consciência disso. Sabíamos que não passaria.” (Marcelo Pontes)

“A verdade é que as eleições diretas não iam ser aprovadas. Na volta de um comício em Cuiabá, pegamos um vôo de madrugada e estavam sentados nas poltronas na frente da minha o Ulysses, o Lula e o Doutel de Andrade, representando o Brizola. Atrás, estávamos a Cristiane Torloni e eu. Ela dormia, e eu prestava atenção na conversa do Ulysses com o Lula. Em determinado momento, o Ulysses perguntou: “Lula, nós colocamos o povo na rua. E agora?” (Jorge Bastos Moreno)

No dia 25 de abril, a votação no Congresso Nacional terminou sem que a emenda Dante de Oliveira conseguisse a maioria de dois terços para ser aprovada. Perdeu por apenas 22 votos. Precisava de 320 e recebeu 298. Desses, 55 eram de deputados do PDS. Houve 65 votos contra, 113 ausências e três abstenções.

Meses mais tarde, a escolha de Tancredo Neves para concorrer com Paulo Maluf na disputa pela presidência da República, via indireta, recebeu apoio de Roberto Marinho. Trazendo o lema da conciliação, a candidatura Tancredo foi vista como uma garantia de transição sem riscos. Após a confirmação de seu nome pelo Colégio Eleitoral, O Globo chamou-o de O mensageiro da conciliação, homem público capaz de reconhecer, apesar de sua militância oposicionista, o “relevante papel do presidente Figueiredo e das Forças Armadas no feliz encaminhamento da sucessão presidencial e da transição para a plenitude democrática”.