O final da década de 70 e o início dos anos 80 foram marcantes para O Globo. O povo ainda enfrentava a repressão, mas o Brasil percorria o caminho da democracia. Pelas páginas do jornal, a população tomava conhecimento da abertura politica promovida pelo governo Geisel. Enquanto isso, O Globo encontrava-se cada vez mais perto das comunidades. Inovações surpreendiam o leitor. Redação modernizada, novos suplementos, como os Jornais de Bairro, cor na primeira página e no Segundo Caderno. O Globo se tornava o primeiro diário brasileiro a circular no Natal e no dia primeiro de janeiro. 


Eleição e impeachment de Collor

A população brasileira foi às ruas, em 1989, para escolher o presidente da República. Era a primeira eleição direta depois de 29 anos. Os principais candidatos eram Fernando Collor de Mello (PRN), Luís Inácio Lula da Silva (PT), Leonel Brizola (PDT), Mário Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS), Ronaldo Caiado (UDR), Afif Domingues (PL) e Ulisses Guimarães (PMDB)

A eleição foi em dois turnos. No primeiro, Collor – que já vinha liderando as pesquisas – saiu vitorioso. Lula ficou em segundo lugar. Os brasileiros voltaram às urnas em 17 de dezembro, no segundo turno das eleições. Collor foi, então, eleito com 42,75% dos votos. Lula obteve 37,86%. 

Apesar de ter expressado, em editoriais, apoio ao candidato Fernando Collor, a orientação da direção do jornal era fazer uma cobertura equilibrada, com espaço igual para os candidatos. Agostinho Vieira, que foi repórter e sub-editor de política, comenta: “Foi uma cobertura difícil de fazer e tensa. Tínhamos que tomar muito cuidado para não descambar nem para um lado nem para o outro.  A recomendação era essa: espaço absolutamente igual para todo mundo.”

“Foi uma cobertura difícil e tensa. A recomendação era espaço igual para todo mundo.” (Agostinho Vieira,  jornalista)  

Em maio de 1992, Pedro Collor, irmão do presidente, entregou à revista Veja documentos que acusavam irregularidades envolvendo o presidente e o tesoureiro da sua campanha, Paulo César Farias. Com isso, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar as denúncias. Descobriu-se que PC Farias desviara as “sobras de campanha” e que a arrecadação de contribuições, sob a forma de propina, continuava sendo feita inclusive para pagar despesas do presidente e de sua mulher, Rosane Collor. A primeira-dama, por sua vez, chegou a ser condenada pela Justiça Federal a devolver o dinheiro da LBA usado para custear a festa de uma amiga.        

O Globo deu ampla cobertura à crise política. Na primeira página da edição de 16 de setembro, foram publicadas fotos dos estudantes “caras-pintadas” em uma passeata pró-impeachment. No período que antecedeu à votação do impedimento, foram publicadas, diariamente, charges de Aroeira, Chico ou Erthal, que ironizavam a situação e o presidente.

O jornalista de O Globo, Jorge Bastos Moreno, teve uma participação decisiva na cobertura e no desenrolar do processo de impeachment do presidente. Moreno acompanhou a quebra do sigilo telefônico de Paulo César Farias e descobriu um cheque relacionando PC à Rosane Collor. O jornalista foi o primeiro a noticiar a compra de um automóvel – um Fiat Elba - por um “fantasma” do ex-presidente, o que rendeu a O Globo um dos seus principais furos de reportagem.

Em 26 de agosto, foi concluído o relatório da CPI, aprovado pela maioria no plenário da comissão. A oposição conseguiu o número de votos necessário para que se iniciasse o processo de impeachment. A manchete da primeira página de 29 de setembro anunciou: Câmara vota hoje o destino de Collor.

A Câmara dos Deputados aprovou por 441 votos a 38 o impeachment do presidente. A edição de O Globo do dia seguinte trouxe a manchete Collor está fora do poder e uma grande foto dos deputados oposicionistas comemorando o voto número 336 a favor do impedimento. Afastado da presidência, Collor foi substituído em 2 de outubro pelo vice-presidente Itamar Franco.

O último julgamento ocorreu no Senado, em 29 de dezembro. Diante da tendência dos senadores em afastá-lo do cargo e suspender seus direitos políticos, Collor renunciou. Mesmo assim, o julgamento prosseguiu e o presidente afastado foi condenado à inelegibilidade e à inabilitação, por oito anos, para o exercício de cargos públicos.

Ao avaliar a cobertura de O Globo sobre o impeachment de Collor, Evandro Carlos de Andrade contou: “Foi total. O Globo apoiava a candidatura de Mário Covas até o primeiro turno, quando ela não se viabilizou. No segundo turno, apoiou editorialmente o Collor, mas sem nenhuma restrição à cobertura. Nós fizemos uma cobertura amplíssima sempre. A mesma coisa no impeachment. Na ocasião, eu escrevi um artigo assinado mostrando que aquilo estava podre, que não era possível continuar. Eu tinha certeza da corrupção porque tinha amigos de outras atividades. Empreiteiros  contavam o seguinte:  ‘Fulano teve que dar tanto’. A gente sabia do esquema de corrupção, então, quando o irmão do Collor, Pedro Collor, deu aquela entrevista, iniciou-se um processo que era inevitável. O jornal deu tudo”.