O final da década de 70 e o início dos anos 80 foram marcantes para O Globo. O povo ainda enfrentava a repressão, mas o Brasil percorria o caminho da democracia. Pelas páginas do jornal, a população tomava conhecimento da abertura politica promovida pelo governo Geisel. Enquanto isso, O Globo encontrava-se cada vez mais perto das comunidades. Inovações surpreendiam o leitor. Redação modernizada, novos suplementos, como os Jornais de Bairro, cor na primeira página e no Segundo Caderno. O Globo se tornava o primeiro diário brasileiro a circular no Natal e no dia primeiro de janeiro. 


Morte de Tancredo e governo Sarney

Em 21 de abril de 1985, morreu Tancredo Neves, primeiro presidente civil desde 1964, eleito por um colégio eleitoral em janeiro. O Globo acompanhou, com destaque, o agravamento da doença do presidente. As manchetes, somadas às fotos de populares, médicos ou políticos consternados, pautavam o clima de comoção nacional criado com a expectativa em torno da hospitalização e das operações sofridas por Tancredo Neves desde 14 de março.

O jornalista Luiz Alberto Bittencourt lembra que Roberto Marinho era muito próximo de Tancredo Neves: “Ele tinha uma ligação política forte com Tancredo, chegando a confessar que conversava com o político sobre determinadas decisões”.

Tancredo Neves ganhou a disputa no Colégio Eleitoral, mas morreu antes de assumir a presidência. Entre os repórteres escalados para a cobertura estavam Luís Erlanger, Jorge Bastos Moreno e Tereza Cruvinel.  Erlanger recorda que os dois colegas foram os primeiros repórteres de O Globo escalados para cobrir a estadia de Tancredo Neves no Hospital das Clínicas, em São Paulo. “Era uma loucura, dia e noite no hospital. O Evandro me mandou para revezar na cobertura porque o Moreno e a Tereza tinham que voltar a Brasília, pagar conta, não tinham roupa, etc. De repente, me dei conta: ‘não posso ir embora da cobertura do Tancredo. Vai que eu saio e ele morre na minha ausência.’ Ficamos os três. A gente sabia que o Tancredo estava liquidado. Fiquei quase um mês em São Paulo. Era chegar no hotel, mandar lavar a camisa e voltar para o Hospital das Clínicas. O papel de jornalista é esse mesmo, é testemunha. Mas me lembro bem quando escrevi: ‘ Morreu Tancredo...’ Foi um dos leads mais difíceis da minha vida.”

Antes de entrar para O Globo, o repórter e colunista, Jorge Bastos Moreno, acompanhou as viagens de campanha de Tancredo Neves a sete países. Já no jornal, cobriu os passos do político mineiro até a época em que ele tomaria posse na presidência da República.  Moreno  conta: “ Colei no Tancredo do dia em que ele deixou o governo de Minas até o túmulo.”

Ele recorda que na redação do Globo, em São Paulo,  existia um esquema de cobertura para o dia da morte: “ Chegou a um ponto que todo mundo já sabia que o Tancredo estava sobrevivendo com o aparelho. Aquele processo violentíssimo da hipotermia. Soube da morte no meio de uma peça do ator e meu amigo Paulo César Pereiro, que insistiu para que eu fosse vê-lo no teatro.  Ele dizia: ‘Vamos Moreno. O Tancredo não vai morrer hoje!’ No intervalo da peça, o Pereio faz um gesto pra mim e diz assim: ‘O Tancredo morreu’.  Eu falei:  ‘Minha Nossa Senhora!’  Eu, que acompanhei o presidente o tempo todo, não escrevi o lead da morte. É a  imponderabilidade do jornalismo. Você não pode abandonar o posto.  Eu estava programado para fazer o lead da morte dele e, tentado por um amigo, fui ver uma peça de teatro.”

A jornalista Teresa Cruvinel lembra que se preparava para a posse quando recebeu um recado: “Era para ir direto para a casa do Sarney. O Tancredo tinha passado mal na missa. Logo, foi removido para o Hospital das Clínicas, em São Paulo. E para lá fomos eu, o Moreno e o Erlanger. O Tancredo podia morrer a qualquer hora. E quando ele morreu, o plantão era meu e eu fiquei muito insegura. Tive um mal estar emocional horrível. Em seguida, o Erlanger chegou e nós dois escrevemos a manchete do jornal juntos.”

Após a morte de Tancredo Neves, O Globo apoiou o vice, José Sarney, considerando que ele daria sustentação à Nova República.