O final da década de 70 e o início dos anos 80 foram marcantes para O Globo. O povo ainda enfrentava a repressão, mas o Brasil percorria o caminho da democracia. Pelas páginas do jornal, a população tomava conhecimento da abertura politica promovida pelo governo Geisel. Enquanto isso, O Globo encontrava-se cada vez mais perto das comunidades. Inovações surpreendiam o leitor. Redação modernizada, novos suplementos, como os Jornais de Bairro, cor na primeira página e no Segundo Caderno. O Globo se tornava o primeiro diário brasileiro a circular no Natal e no dia primeiro de janeiro. 


Proconsult

A primeira eleição direta para governador após o regime militar foi em novembro de 1982. Entre os candidatos, estavam alguns líderes de oposição que haviam sido cassados ou exilados no período da ditadura. A eleição envolvia também a escolha de senadores, deputados estaduais e federais, prefeitos e vereadores. No Rio de Janeiro, os candidatos a governador do Estado eram Leonel Brizola (PDT), Moreira Franco (PDS), Miro Teixeira (PMDB), Sandra Cavalcanti (PTB) e Lysâneas Maciel (PT).

O Tribunal Superior Eleitoral determinou, naquele ano, que o voto deveria ser vinculado e decidiu informatizar a fase final da apuração. Na maioria dos estados, a responsável pela apuração foi uma empresa estatal, o Serpro. No Rio de Janeiro, a firma contratada foi a Proconsult & Racimec Associados.

A apuração foi tumultuada já nos primeiros dias no Rio de Janeiro. Seguia um ritmo lento. Os votos do interior chegavam primeiro. Os do município do Rio de Janeiro eram mais demorados.

O Globo montou um sistema paralelo de apuração. Os resultados também eram dados na TV Globo. O objetivo era divulgar os números com rapidez, antecipando o resultado do TRE. Mas, a apuração de O Globo seguiu um ritmo similar ao da oficial, com resultados que apontavam uma vantagem de Moreira Franco.

O jornalista Luiz Garcia acredita que  esses episódios paralelos se confundiram. E explica: “O Globo tinha uma tradição de publicar todos os resultados dos candidatos a eleição proporcional. O que aconteceu? 1982 foi a primeira eleição direta para governador. E talvez a gente não tenha percebido que isso era muito mais importante do que qualquer outra coisa, e nós mantivemos o nosso sistema. O sistema, por causa dessa cobertura voto a voto, era mais lento. O jornal dava primeiro os resultados do interior, que vinham um pouco mais depressa, e não fazia a apuração direta nas juntas, na capital, aonde o Brizola estava mais forte. Então, se você pegar a coleção do Globo, você vê que o Globo desde o começo diz assim: ‘Primeiros resultados bota o Moreira na frente, mas a indicação é de que o Brizola vai ganhar.’ Uma vez nós publicamos um dossiê mostrando exatamente a nossa cobertura. Mas criou-se a impressão de que nós estávamos forçando a barra para parecer que o Moreira estava ganhando a eleição. Simultaneamente houve o escândalo da Proconsult. Que a gente não tinha nada a ver com aquilo. O escândalo da Proconsult foi o escândalo da Proconsult. Que era uma empresa contratada pelo Tribunal Regional Eleitoral. Mas as pessoas juntaram uma coisa na outra,  montaram uma conspiração e nós pagamos o preço. Nós tivemos um erro. Deveríamos ter feito uma apuração ágil, principalmente na capital, como faziam em rádio. E desde o começo dar, em números, a vantagem do Brizola. Embora no jornal a gente dissesse que a vantagem do Moreira era falsa, temporária. Era uma vantagem só porque estava apurando mais voto no interior do que na capital. Foi um erro técnico que a gente cometeu. “

Henrique Caban lembra que a decisão era apurar as eleições, candidato a candidato, quando, no fim do primeiro dia, perceberam algo estranho na contagem dos votos: “O coordenador da apuração, Iran Frejat, editor do Grande Rio,  percebeu que a eleição na capital estava travada. Nós estávamos fazendo os cálculos o tempo todo, ‘ o resultado nesse momento é esse, a projeção dá isso’. Na projeção, o Brizola ganhava. O TRE acompanhou as eleições exatamente como nós.  “

Sobre o caso Proconsult, Evandro Carlos de Andrade esclareceu, por e-mail, em 2001:

“A Proconsult, empresa de computação de dados de propriedade de oficiais da reserva da Marinha, fora contratada pelo Tribunal Regional Eleitoral para computar os votos apurados pelas juntas eleitorais.

Paralelamente - e sem qualquer relação ou contato  ou o que quer que fosse com a Proconsult - o Globo organizou a sua própria apuração, por meio da convocação de um grande número de estagiários, coordenados pelo Iram Frejat, declaradamente brizolista e irmão de José Frejat, candidato do PDT ao Senado naquela eleição.

A TV Globo, que não tinha apuração própria, limitava-se a reproduzir os números fornecidos pelo Globo.

A apuração decorreu velozmente no interior do Estado. No Rio, ela era lentíssima, porque os juízes se recusavam a liberar mapa por mapa, para só divulgar os totais de cada zona eleitoral. Se isso correspondia a algum tipo de conspiração para alterar os resultados das urnas, é uma vaga possibilidade, mas sobre a qual só se poderá especular, já que é impossível obter provas a respeito.

O fato é que nos primeiros dias da apuração, surgia em primeiro lugar Moreira Franco (que, de fato, veio a ganhar no interior).

Só que DESDE O PRIMEIRO DIA DA APURAÇÃO, o Globo dizia, na primeira página, que as projeções indicavam a vitória final de Leonel Brizola. Se qualquer profissional de jornalismo que tiver respeito por si mesmo e pela profissão desejar conhecer a verdade, basta consultar a coleção do Globo. 

Aconteceu que Homero Icaza Sanches, que trabalhava na Globo como especialista em pesquisas, desconfiou que havia alguma má intenção (não da Globo ou do Globo) na apuração e alertou Brizola, que, espertamente, passou a acusar a Globo de estar distorcendo os resultados.“

Três dias após a eleição, em 18 de novembro, o candidato do PDT, Leonel Brizola, reuniu a imprensa internacional e criticou a lentidão nas apurações oficiais e a cobertura jornalística. Insinuou que poderia estar se criando um clima para favorecer uma fraude eleitoral.

O TRE pediu abertura de inquérito junto a Polícia Federal para apurar as denúncias de irregularidades na contabilização dos votos pela Proconsult e aprovou uma auditoria técnica na empresa. Ficou concluído que a totalização dos votos tinha sido mal planejada e desorganizada, mas que erros não foram intencionais.

Um mês depois das denúncias, foi divulgado o resultado oficial. Brizola venceu com 34,2 % dos votos contra Moreira, que ficou com 30,6% dos votos. O inquérito sobre a fraude terminou arquivado.