Em 20 anos, a Rádio Globo cresceu, inovou e se tornou líder de audiência. A partir da década de 1950, o slogan “música, esporte e notícia” passou a orientar a programação da rádio. Os locutores adotaram uma linguagem mais coloquial, com objetivo de se aproximar cada vez mais do ouvinte. A participação direta do público, inovações nas transmissões de grandes eventos esportivos, e programas que abriam os microfones da rádio para celebridades foram alguns dos elementos que levaram a Globo a conquistar, em 1964, a liderança de audiência.


Governo de Vargas

Em 1953, a Globo ganhou audiência com os pronunciamentos inflamados do deputado Carlos Lacerda contra o então presidente Getúlio Vargas. Lacerda acusava Vargas de ter intercedido na operação do empréstimo feito pelo Banco do Brasil ao empresário Samuel Wainer para viabilizar seu jornal, o Última Hora. No programa O Parlamento em Ação, Lacerda intensificou suas críticas ao governo, denunciando aquilo que chamava de “mar de lama”. 

Carlos Lacerda, 16/03/1959 . Arquivo/Agência O GloboFrente à repercussão do programa, Roberto Marinho foi pressionado por membros do governo a impedir os pronunciamentos de Lacerda na Globo. Negando-se a afastá-lo, comprometeu-se a obter moderação nos discursos do deputado: “O Sr. Carlos Lacerda tornou-se, em 1954, uma figura nacional graças ao microfone da Rádio Globo. Fui chamado ao Gabinete Militar da Presidência da República, numa das noites que antecederam o fim do governo do Presidente Getúlio Vargas. Lá estavam o general Caiado de Castro, chefe da Casa Militar, o Sr. Tancredo Neves, ministro da Justiça, e o então coronel Paulo Torres, chefe da Polícia. Pediram-me que não mais permitisse que o Sr. Carlos Lacerda falasse ao microfone da Rádio Globo. Neguei-me. O general Caiado disse-me, então, que o governo tinha poderes para fechar a Rádio Globo. Nessa época eu estava passando por uma crise financeira séria, e seu fechamento representaria uma grave ameaça ao nosso patrimônio. Mas não hesitei um momento. Levantei-me e disse que, assim, o problema estaria resolvido. O governo que fechasse a nossa emissora.  O Sr. Tancredo Neves esclareceu que não era intenção do governo fechá-la, mas apenas obter moderação nos pronunciamentos de Lacerda. Prometi agir para esse fim, o que, aliás, estava de acordo com minha maneira de sentir, pois sempre achei que as maiores campanhas podem ser levadas à frente sem insultos e desbordos de linguagem.”

“Carlos Lacerda, durante o início do seu governo na cidade do Rio de Janeiro, utilizou muito a Rádio Globo. Usou também na sua famosa campanha contra o governo de Getúlio Vargas.” (Roberto Marinho)

E assim foi. Enquanto defendia publicamente a Rádio Globo, na emissora Roberto Marinho chamava a atenção de Raul Brunini e Luiz Brunini sobre os excessos nos ataques ao governo. Segundo depoimento de Raul Brunini ao Centro de Documentação e Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC), eles tentaram alertar Roberto Marinho para o fato de que a Rádio Globo havia aumentado muito a audiência com as transmissões de Lacerda, e que seria ruim tirar o programa do ar exatamente naquele momento. Roberto Marinho contra-argumentou afirmando que os programas estavam se tornando exclusivamente de críticas ao governo, e que isso não era correto. Para resolver o impasse, Luiz Brunini sugeriu que fosse oferecido ao governo o mesmo tempo de palestra na rádio que era utilizado por Carlos Lacerda para, assim, defender-se em condições de igualdade contra os ataques. Raul Brunini conta: “Foi a nossa sorte. O governo se entusiasmou e, a princípio, mandou alguns representantes. Depois, não mais. Ou não se interessou ou não teve como se contrapor ao Lacerda. E ele ficou praticamente sozinho.”

Suicídio de Vargas

Após o suicídio de Vargas, tanto a Rádio Globo como o jornal O Globo sofreram ataques da população, que atribuía o desfecho trágico do presidente aos pronunciamentos de Lacerda. Raul Brunini, que estava de plantão na fatídica madrugada, relembrava: “Quando o Getúlio se suicidou, eu estava no estúdio da Rádio Globo e o Rubens Amaral estava na casa do vice-presidente Café Filho, junto com o Carlos Lacerda. Esperava-se, a todo momento, a renúncia do Getúlio, e não seu suicídio. Imediatamente à notícia, a Rádio Globo foi cercada. As caminhonetes de O Globo foram incendiadas, a massa foi para a frente da Globo, pedindo a nossa cabeça, a cabeça do Lacerda.”

“Comecei a comandar a resistência da Rádio Globo. Mandei fechar a porta da frente, levantar os elevadores para o último andar. Queriam quebrar a porta. Nós nos defendemos. Eles não conseguiram chegar, nos agrediram com pedras, mas ninguém saiu ferido. Foi uma coisa impressionante”, completa o comentarista esportivo Luiz Mendes.