Um faro visionário e talento para negócios foram os ingredientes que levaram Roberto Marinho a comprar a frequência 1180 kHz, faixa PRE-3, para criar a Rádio Globo. Com sua habilidade transformou, em poucos meses, a Rádio Transmissora do Rio de Janeiro numa emissora de grande sucesso.


Compra

"Eu estava com muitas dificuldades, dada a precariedade das minhas finanças, de encontrar uma rádio acessível para comprar, até que soube que um cidadão da Rua Mariz e Barros, no Rio de Janeiro, estava pretendendo vender uma estação de rádio que possuía em casa”, destacou Roberto Marinho.

“Quando chegaram ao Rio de Janeiro grandes sumidades, principalmente musicais, nós fizemos audições na Rádio Clube do Brasil. Isso me trouxe a ideia de que era necessário que O Globo tivesse uma rádio própria.” (Roberto Marinho) 

Na década de 1940, a radiodifusão usava faixas de ondas médias, que às vezes eram chamadas de radio AM. Emissoras com potencias de 50 quilowatts, maior potência permitida na época, alcançavam milhares de quilômetros, como explica o engenheiro Djalma Ferreira, que participou deste momento histórico colaborando com a montagem da Rádio Globo: “O número de estações existentes era pequeno e, portanto, não havia muita interferência. A frequência de 1180 kHz, que Dr. Roberto comprou, cabia ao Chile. Por algum tempo, a  Rádio Transmissora Brasileira conseguiu licença para funcionar na frequência de 1180 kHz do Chile, com potência limitada a 10 kW. Quando o Dr. Roberto desejou aumentar a potência da rádio para a máxima de 50 kW, esbarrou no fato de o canal ser de uso exclusivo do Chile e conseguiu permissão de Gabriel Gonzalez Videla, então presidente daquele país, para utilizar o canal no Brasil com 50 kW. Logo depois, a Rádio Globo comprou um transmissor federal de 50 kW, que funcionou até 1972. Cinco anos depois, a Rádio Globo trocou o canal para 1220 kHz, canal que havia sido da Rádio Mayrink Veiga e que era um dos exclusivos do Brasil.”

O radialista Raul Brunini fala de como foi difícil trabalhar com uma rádio de potência de 10 kW: “A Rádio Globo foi um milagre, no início. Era muito precário tudo. A emissora praticamente não tinha som, a potência dela era pequena. Dizia-se naquela época que a Rádio Globo era lida, mas não era ouvida. Porque o Globo fazia a grande promoção da estação, mas a estação não tinha som. Rádio é som, e o som dela era horrível. O que adiantava você ter a Orquestra do Mignone (Francisco Mignone), o Jazz do Gaó (Odmar Amaral Gurgel) e outros  grandes nomes se a recepção da rádio era terrível?”

Logo, Roberto Marinho conseguiu permissão para o aumento da potência da Rádio Globo: “Tratava-se de uma rádio pertencente ao Chile. Lembrei da minha amizade com o presidente Gonzalez Videla, que havia sido embaixador no Brasil. Telefonei para ele e disse que tinha um assunto para conversar. Imediatamente me convidou a ir a Viña del Mar, onde encontrava-se. Ele mandou estudar o assunto e já no dia seguinte me disse: Marinho, vou lhe conceder todas as autorizações. Os meus técnicos me dizem que a barreira dos Andes nos separa completamente do Rio de Janeiro. Você  pode fazer o que quiser com a nossa rádio e já foram assinados os documentos nesse sentido. A operação da rádio foi concluída rapidamente. Eu não lembro quanto custou a estação que viria a ser  a Rádio Globo, mas talvez tenha sido a estação mais barata comprada no Brasil”, ressaltou Roberto Marinho.