A TV Globo nasceu em um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil. Três anos após ser inaugurada, foi decretado o Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, quando o regime militar intensificou a vigilância sobre os meios de comunicação. A emissora de Roberto Marinho não escapou da censura, diretamente proporcional ao crescente aumento de sua audiência. 


Abertura

A posse do general Ernesto Geisel como presidente do Brasil, em 1974, deu início a uma abertura política lenta e gradual, que se refletiu na amenização da censura sobre os meios de comunicação. O regime militar começou a perder sua sustentação política e social e, no mesmo ano, foram realizadas eleições para senadores e deputados. O período, também conhecido como Distensão, fez com que o jornalismo político da Globo ganhasse mais expressão, ampliando, por exemplo, a participação da sucursal de Brasília, antes restrita à cobertura de acontecimentos e problemas da cidade.

“O jornalismo vivia e sofria a mesma transição. Ele ainda não era o jornalismo de hoje, que tem que prestar atenção na sociedade, um jornalismo liberado para dizer e analisar o que quiser; mas já não era o jornalismo proibido, dependente da ordem, do humor e das maluquices do Estado. Foi um período difícil e fascinante. O proibido era decadente, o permitido era nascente, e a gente estava ali no meio, tentando abrir espaço”, afirma Antônio Britto, jornalista da Globo nessa época.

Na década de 1980, muito presente no dia a dia da empresa, Roberto Marinho apoiou os novos rumos do telejornalismo da emissora, e, como era de seu costume, passou por cima das desavenças para contratar antigos desafetos. Como o jornalista Paulo Francis, sugestão de Hélio Costa para trabalhar como comentarista da Globo em Nova York.

“O Armando Nogueira achava que o Dr. Roberto não concordaria, mas me permitiu levar a proposta, achando que ele diria 'não'. Olhem o que é a visão de um homem de comunicação. Com todas as agressões que ele havia sofrido, quando estava em jogo a questão profissional, ele não hesitou. Contratamos o Paulo Francis, que foi um sucesso extra”, conta Hélio Costa. Paulo Francis estreou na Globo em 1981, como comentarista político do programa Globo Revista e do Jornal da Globo, programas jornalísticos que, no início da década de 1980, aproveitavam o clima de abertura para dar ênfase a assuntos de teor político e econômico.

Foi no programa Painel, inclusive, que, em 1979, os telespectadores assistiram às imagens da repressão violenta da polícia de São Paulo aos metalúrgicos em greve na região do ABC paulista. Foi o primeiro programa jornalístico a conseguir furar a vigilância da Censura. “Pela primeira vez nós conseguimos botar na TV o que realmente estava acontecendo no país. A censura era tremenda em cima de todos os meios,  sobretudo na TV Globo. O Painel ia ao ar no fim da noite, acho que os censores não gostavam de trabalhar até tarde. Ousamos naquele dia, sob o risco de receber uma reprimenda forte do departamento de Censura”, ressalta o jornalista Leonardo Gryner.

No período de abertura política, conta o jornalista Álvaro Pereira, a orientação da direção às equipes era a de dar todas as informações, embora com cautela, para não provocar resistências ainda maiores do regime militar. “Nós trabalhávamos num terreno muito minado. Era preciso ter jogo de cintura até para usar as palavras certas, para não ferir suscetibilidades”, diz o jornalista, que trabalhava na sucursal de Brasília na época, onde participou de coberturas de fatos importantes, como a greve de metalúrgicos no ABC paulista e as discussões sobre a Lei da Anistia e a volta dos exilados políticos, ambos em 1979.

A chegada dos anistiados, aliás, mereceu boas coberturas nos jornalísticos da Globo. O Jornal Nacional foi um dos que cobriu o assunto com grande destaque. “Foi um período de festa. De certa maneira, já havia raiado o sol da liberdade, quer dizer, não havia mais tantas restrições às coberturas, recorda Luís Edgar de Andrade, que acompanhou o desembarque de vários anistiados, como o do jornalista Flávio Tavares, que havia sido seu companheiro de prisão no quartel da Polícia do Exército, e o do político Leonel Brizola.

A despeito da diminuição da censura, os anos 1980 ainda seriam marcados por intervenções do governo no jornalismo da TV Globo. Em 1981, um atentado a bomba matou um sargento e feriu um capitão do exército no Riocentro, no Rio de Janeiro, durante a realização de um show em comemoração ao Dia do Trabalhador. Militares impediram que a Globo veiculasse informações.

“Essa cobertura foi uma das maiores frustrações que nós tivemos. Foi um grande telhado de vidro para os militares. Eles praticamente ocuparam a redação e não deixaram que exibíssemos nada. Foi uma censura deliberada em cima da Rede Globo, por sua maior repercussão em relação às outras redes. O jornalismo da Globo já estava definitivamente consolidado, e eles vieram com mão de ferro. Não pudemos noticiar como gostaríamos de ter feito. Foi uma das coisas mais contundentes com a qual eu tive que conviver como diretor de jornalismo da Rede Globo. Eu e a empresa toda”, contou Armando Nogueira.