A TV Globo nasceu em um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil. Três anos após ser inaugurada, foi decretado o Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, quando o regime militar intensificou a vigilância sobre os meios de comunicação. A emissora de Roberto Marinho não escapou da censura, diretamente proporcional ao crescente aumento de sua audiência. 


Censura ao Jornalismo

A dificuldade de abordar temas nacionais durante o governo militar levou ao fortalecimento do noticiário internacional, com o consequente investimento na formação de correspondentes estrangeiros. O jornalista Hélio Costa, que trabalhava em Washington para o programa Voz da América, passou a enviar, como freelancer, matérias para a Rede Globo, até sua contratação em 1973. A repórter Cidinha Campos já realizava reportagens sobre assuntos variados em viagens ocasionais aos Estados Unidos e à Europa, e Janos Lengyel – então correspondente do jornal O Globo em Genebra – também passou a produzir matérias para a emissora. A presença dos correspondentes nos locais dos acontecimentos conferia mais veracidade à notícia, antes restrita ao uso do material das agências internacionais.

“Vivíamos um processo político extremamente difícil na década de 60, com uma situação de penúria no jornalismo brasileiro, em que tudo era vetado pelo regime militar. Havia uma dificuldade muito grande de se cobrir assuntos nacionais”, conta Hélio Costa.

 “No quadro da redação tinha uma nota proibindo a imagem do senador Ted Kennedy na televisão brasileira, por causa dos ataques que ele fazia ao regime militar na questão dos direitos humanos”, revela ainda o jornalista.

O jornalista Jorge Pontual se lembra da lista de assuntos proibidos fixada na parede da redação. Ele conta que, eventualmente, a equipe era informada de muitos fatos através do veto, já que alguns assuntos eram proibidos antes mesmo de a imprensa tomar conhecimento deles. Pontual corrobora que raramente se proibiam as notícias internacionais. Sua reportagem sobre a eleição de Salvador Allende para a presidência do Chile, em 1970, ganhou ampla cobertura no Globo Repórter. Allende foi o primeiro chefe de Estado socialista eleito democraticamente na América Latina.

Em 1973, no entanto, os militares ficaram indignados com o tom solene com que Heron Domingues, apresentador do extinto Jornal Internacional, veiculado no fim da noite, leu a nota da morte do presidente chileno durante o golpe liderado pelo general Augusto Pinochet. Reclamaram também do editor Humberto Vieira, por considerarem muito detalhada a cobertura da crise no Chile.

Os conflitos armados na América Central, opondo guerrilheiros e os governos de países como El Salvador, Honduras, Guatemala e Nicarágua também tiveram grande cobertura da Globo. O jornalista Lucas Mendes, por exemplo, viajou mais de uma dezena de vezes a El Salvador para fazer reportagens sobre a guerra civil instalada no país. “No Brasil não se podia falar de repressão, prisão, tortura, então falávamos da América Central, onde a situação era igual à daqui”.

Certa vez, Sérgio Chapelin, apresentador do Jornal Nacional, gripado, pigarreou ao dar uma notícia sobre a morte de guerrilheiros na América Latina, e isso quase virou caso de polícia. Agentes do SNI foram se queixar com Armando Nogueira e Alice-Maria, convictos de que o apresentador se emocionara porque era solidário com os guerrilheiros.

Qualquer assunto podia ser alvo de censura, como uma epidemia de meningite em São Paulo, o discurso do papa Paulo VI sobre os dez anos da encíclica Populorum Progressio, a missa de sétimo dia do ex-presidente João Goulart, notícias sobre cassações de mandatos e suspensão de direitos políticos, a denúncia de acordos militares entre Brasil e EUA, a visita da Anistia Internacional, entre outros. A notícia do derrame do presidente Costa e Silva em 1969, por exemplo, teve que ser negociada, pois os militares queriam escondê-la. Uma nota oficial no Jornal Nacional foi a única satisfação dada aos brasileiros.

“Todos os jornalistas de televisão, rádio e imprensa escrita trabalhavam na base do press release, tinham a mesma informação. Você chegava na porta de um ministério e ficava esperando o assessor de imprensa, que vinha com um press release pronto. Era muito difícil dar um furo, ter uma informação exclusiva, que não fosse quando eles quisessem”, afirma a jornalista Marilena Chiarelli.

O cinegrafista Orlando Moreira lembra de um incidente no Centro do Rio, no qual foi alvo da polícia enquanto fazia imagens para a Globo. Ele estava a certa distância, filmando um pelotão da Polícia Militar batendo nos estudantes, quando um dos policiais atirou em sua direção, atingindo uma vidraça a seu lado. “O filme foi confiscado e nunca exibido, porque a Censura alegou que queria descobrir quem era o policial”.

Era dura a pressão sobre Roberto Marinho. De um lado tinha o governo permanentemente nos calcanhares da TV Globo, dizendo o que podia e o que não podia ser dito; de outro, os jornalistas da própria emissora que, cansados de serem agredidos nas ruas, acusados de conivência, procuravam levar suas reivindicações ao presidente da empresa através de Armando Nogueira e profissionais como o escritor Otto Lara Resende e o então diretor de comunicação, João Carlos Magaldi. “Roberto Marinho era pressionado pelo governo e sofria uma contrapressão interna”, ressalta o jornalista Fabbio Perez.

Humberto Pereira se recorda dessa época de supressão da liberdade de expressão. “O editor chegava e estava lá o recado no telex, por exemplo: ‘Estão proibidas quaisquer referências, notícias, comentários sobre a passeata dos estudantes que sairá hoje, às 17h, do Largo de São Francisco em direção à Praça da República.’. E a assinatura era uma coisa curiosa, porque não era de delegado ou de investigador, era de uma secretária, sempre o nome de uma mulher, nomes fictícios como Solange Regina, Kátia Augusta”.

Apesar das proibições, as equipes usavam de artifícios para tentar transmitir as notícias. “A gente mandava um repórter perguntar: ‘Coronel, é verdade que está proibida a passeata dos estudantes que vai sair hoje, às 17h, do Largo de São Francisco em direção à Praça da República?’ Ou seja, dava-se a notícia na pergunta. E ele respondia com veemência: "Está proibido! Quero aqui avisar aos pais para não deixarem os filhos irem para a passeata, porque ela vai ser reprimida". Aí é que todo mundo ia”, relata Humberto Pereira.