A TV Globo nasceu em um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil. Três anos após ser inaugurada, foi decretado o Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, quando o regime militar intensificou a vigilância sobre os meios de comunicação. A emissora de Roberto Marinho não escapou da censura, diretamente proporcional ao crescente aumento de sua audiência. 


Censura na dramaturgia

Em agosto de 1975, a novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, foi censurada na véspera da estreia, com 36 capítulos já gravados. Como de hábito, Boni havia enviado a sinopse com os 20 primeiros episódios para a Censura Federal, em Brasília, mas a liberação oficial não chegou.

“A uma semana da estreia, começou a haver uma onda de que a novela seria proibida. E a gente não entendia o porquê. Podia ser porque era baseada na peça O Berço do Herói (do próprio Dias Gomes), que falava de um pracinha do exército que supostamente havia morrido na guerra e, na verdade, estava vivo. Na nossa história, não havia nenhuma referência ao exército, o rapaz trabalhava esculpindo santos e era dado como morto ao defender a cidade de supostos cangaceiros. Achávamos que tínhamos saído da linha de tiro e não corríamos mais o risco de o censor achar que havia alguma coisa errada. Eu já tinha exibido para o elenco seis capítulos prontos, sonorizados. Tinha cenas maravilhosas!”, lembra Daniel Filho, que deixara a direção-geral de dramaturgia só para dirigir a nova produção das 20h, estrelada por Lima Duarte, Betty Faria e Francisco Cuoco.

Dennis Carvalho conta que Daniel Filho reuniu o elenco para comunicar a proibição da novela, e os atores decidiram ir a Brasília falar com o presidente Ernesto Geisel. “A Globo autorizou, e fomos em 25 atores, mais ou menos; os mais representativos – Tarcísio (Meira), Regina Duarte, Francisco Cuoco... Chegamos em Brasília com um manifesto, escrito pelo Paulo Pontes, contra a censura no Brasil”. Segundo Dennis Carvalho, o grupo foi recebido pelo então chefe da Casa Civil do governo, Golbery do Couto e Silva. “O público ficou sabendo que havia censura na televisão brasileira, porque nossa foto em frente ao Palácio foi publicada em alguns jornais”, conta o diretor.

A proibição de Roque Santeiro fez com que Roberto Marinho iniciasse uma campanha contra a censura na TV, como relata Boni, contando o diálogo que teve com o jornalista:

O Globo, 28/08/1975, p. 5. Arquivo/Agência O Globo‘Chame o Armando (Nogueira) que eu quero fazer um editorial no Jornal Nacional’. ‘Dr. Roberto, não é melhor negociar essa coisa?’. ‘Não, eu vou fazer um editorial contra a censura porque isso é um absurdo. Chegou a um ponto inaceitável. Chame aqui o Armando que eu quero que ele redija o editorial junto comigo’. Naquele momento, Roberto Marinho decidiu assumir publicamente que havia censura contra a emissora. O editorial lido pelo apresentador Cid Moreira – também publicado no jornal O Globo, em 28 de agosto de 1975.  

“Roberto Marinho teve uma atitude maravilhosa mandando fazer esse editorial. Boni e eu estávamos sozinhos na sala dele quando o editorial estava sendo lido, e caímos num pranto forte. Nosso desejo era que a televisão melhorasse, que a gente pudesse fazer uma coisa mais bem feita, dar um passo à frente”, relata Daniel Filho. 

Diante desse cenário, o regime passou a exigir a demissão de Dias Gomes. Roberto Marinho se recusou a fazê-lo. O dramaturgo era um dos principais alvos dos militares. Na TV Globo desde o final dos anos 1960, quando, com o pseudônimo de Stela Calderón, adaptou o romance A Ponte dos Suspiros, Dias Gomes foi autor de vários sucessos na emissora, como Bandeira 2 (1971), O Bem-Amado (1973) e Saramandaia (1976). Roque Santeiro seria sua primeira novela para as 20h.

“Além da interdição do meu trabalho, a Censura exigia a minha cabeça, isto é, a minha demissão da TV Globo. Roberto Marinho não somente se recusou a satisfazer a essa exigência como determinou que, entre os argumentos propostos à Censura para substituir o texto proibido, constasse um de minha autoria”, contou Dias Gomes, em entrevista para o livro Roberto Marinho 90: depoimentos.

Pecado Capital, de Janete Clair, foi produzida às pressas para substituir Roque Santeiro, e acabou se tornando um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira. Dez anos depois, em 1985, estreou uma nova versão da novela censurada, estrelada por Lima Duarte, Regina Duarte e José Wilker, alcançando excelentes índices de audiência. Foi um dos marcos da história da Globo.

A novela Despedida de Casado, de Walter George Durst, também foi censurada às vésperas da estreia, porque abordava o desquite, considerado um assunto tabu na época. Nina, do mesmo autor, foi gravada a toque de caixa para substituí-la.

As negociações com os censores eram frequentes, implicando em diversas idas a Brasília para discutir a liberação de cenas, capítulos ou programas. Por vezes, chegavam a extremos de insensatez. Boni passou uma noite inteira na ilha de edição cortando a palavra “coronel” dos capítulos já gravados da novela O Bem-Amado. Os personagens usavam o termo para se referir ao prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), protótipo de um coronel do sertão. Os censores, porém, achavam que Dias Gomes se referia a um coronel de patente militar.