A estratégia de Roberto Marinho para consolidar a presença diária da Globo na vida de milhões de brasileiros foi lançada no finalzinho da década de 1960. Como pilares, a implantação da rede, o início da produção de novelas que retratavam o cotidiano dos telespectadores e a aposta em um novo modelo de telejornalismo, cuja estrela era o Jornal Nacional


Jornalismo

O jornalismo sempre foi a paixão de Roberto Marinho. Na sua recém-inaugurada televisão, não foi diferente. O dono da TV Globo não abriu mão de dar as diretrizes dos telejornais e programas jornalísticos da emissora, desde seus primeiros passos. 

“Ele dava um enfoque muito grande a jornalismo. Eu me lembro dele transmitindo a ideia de como queria tudo, comparado a outras televisões. Ele já pensava em algo diferente para a TV Globo”, comenta Arthur de Almeida, que foi diretor financeiro do jornal O Globo, e chegou a participar de reuniões de Roberto Marinho com representantes da emissora para discutir a programação jornalística.

O primeiro telejornal da emissora foi o Tele Globo, exibido em duas edições diárias, uma à tarde e outra à noite. Criado por Mauro Salles, diretor de jornalismo da emissora, e dirigido por Rubens Amaral, diretor-geral da Globo, apresentava cobertura nacional e internacional.

O departamento de jornalismo funcionava no prédio da emissora, no Jardim Botânico, em uma pequena sala de 6m x 6m. Contava com dois cinegrafistas e cinco repórteres. O esqueleto do programa era rodado em um mimeógrafo para ser distribuído aos apresentadores. Grande parte das ilustrações das reportagens era constituída de filmes e slides, localizadas em um arquivo.

Se um repórter chegasse da rua com alguma informação relevante, não importava se o telejornal já estivesse no ar. O chefe de reportagem Mário de Moraes redigia o texto na máquina de escrever, arrastava-se pelo chão do estúdio e batia na perna do apresentador Hilton Gomes, que pegava o papel e dizia: “Notícia de última hora”.

O jornalismo da Globo nos anos 1960 também foi marcado pela cobertura das enchentes do Rio de Janeiro em 1966, pela criação de telejornais experimentais e pela introdução de inovações de formato e linguagem – tendo como principal expoente o Jornal de Vanguarda, que já passara pelas TVs Excelsior e Tupi. O programa é considerado um marco de criatividade e ousadia - rompeu com a linguagem tradicional dos telejornais, imprimindo um tom coloquial ao discurso de seus apresentadores, e abriu espaço na televisão brasileira para jornalistas da imprensa escrita, entre eles Villas-Boas Corrêa, Tarcísio Holanda, João Saldanha, Sérgio Porto e Millôr Fernandes. 

Um dos grandes destaques do período foi a transmissão da chegada do homem à Lua, em 20 de julho de 1969, operação feita em pool com a TV Tupi, via Embratel. Mais de 600 milhões de pessoas no mundo assistiram ao espetáculo, ao vivo, pela televisão. A Globo transmitiu sem interrupções.

Cerca de cinco meses antes, o apresentador Hilton Gomes apresentara a primeira reportagem internacional via satélite para o Brasil, inaugurando, oficialmente, o Intelsat III, em transmissão em cadeia nacional, comandada pela Embratel. A matéria consistia em uma entrevista gravada na véspera com o papa Paulo VI. Dias depois, foi exibido o lançamento da nave Apolo 9, diretamente de Cabo Kennedy, nos Estados Unidos.