A estratégia de Roberto Marinho para consolidar a presença diária da Globo na vida de milhões de brasileiros foi lançada no finalzinho da década de 1960. Como pilares, a implantação da rede, o início da produção de novelas que retratavam o cotidiano dos telespectadores e a aposta em um novo modelo de telejornalismo, cuja estrela era o Jornal Nacional


Tecnologia

Roberto Marinho sempre se interessou por novidades. Para suas empresas, queria o melhor em termos de novos equipamentos e recursos tecnológicos. “Ele via isso como uma necessidade para que as empresas crescessem”, atesta Arthur de Almeida, ex-diretor financeiro do jornal O Globo.

No entanto, muitas eram as dificuldades da Globo no início de sua fundação. Apesar de a empresa ter sido bem montada, fruto de um projeto de engenharia elaborado para abrigar uma emissora de TV, muitos equipamentos viviam dando problemas.

As câmeras e os videoteipes funcionavam com válvulas, e era comum apresentarem defeito e perda de qualidade. Mantê-los funcionando era um trabalho árduo. “A dedicação à empresa era total, era quase um sacerdócio. Chegávamos a dormir na Globo, quando necessário, para resolver os problemas enormes que surgiam, às vezes por falta de peças de reposição. Não havia muitos equipamentos e, os que existiam, não podiam ficar parados”, conta o ex-diretor da Central Globo de Engenharia, Fernando Bittencourt.

As gravações e transmissões externas merecem um capítulo à parte. No início de suas atividades, a Globo ainda não tinha caminhões de externa, e era obrigada a recorrer ao improviso. A transmissão do Carnaval de 1966, por exemplo, foi feita com um caminhão da empresa Gato Preto, onde foram colocadas as pesadas câmeras TK-60 e toda a parte de controle. “As outras estações de televisão tinham o chamado caminhão de externa, que era um ônibus com os controles internos. Era só levar as câmeras para fora. Como nós não tínhamos, contratamos o caminhão de uma transportadora e montamos uma central. Foi muito ridículo chegar com aquele caminhão de mudança na avenida Presidente Vargas, onde todas as estações estavam com seus caminhões de transmissão prontos”, conta o engenheiro Herbert Fiuza.

No ano seguinte, o jornalismo passou a usar um ônibus de externa da recém-adquirida TV Paulista, que era tão velho que foi apelidado de “Globossauro”.

A televisão brasileira já fazia uso do videoteipe (VT), mas essa tecnologia era usada somente na dramaturgia e nos demais programas de entretenimento. Na produção das reportagens, o jornalismo ainda usava o suporte técnico do cinema, o filme em 16 mm, porque não existia videoteipe portátil. Os equipamentos de gravação eram pesados e não permitiam o dinamismo necessário à reportagem de rua. Realidade que se estenderia até o início da década de 1970.

“Quando o Jornal Nacional foi para o ar, ainda não usávamos as câmeras de televisão portáteis. Usávamos câmeras de cinema. De modo que as matérias eram filmadas, reveladas, avaliadas, editadas e só depois é que iam ao ar, exibidas por um telecine, que disparava com certo atraso. Quando o apresentador anunciava a matéria, alguém no switcher dava partida no telecine, que demorava um tempinho para entrar no ar”, relembra Boni, testemunha de uma era artesanal, caracterizada pela revelação e montagem dos filmes.

As primeiras câmeras usadas nas reportagens não registravam o som ambiente, e foram apelidadas de “mudinhas”. Eram as Bell & Howel e as Bolex, nas quais os cinegrafistas precisavam dar corda para fazer funcionar. Logo depois chegaram as câmeras sonoras Auricom, grandes e pesadas, mas que possibilitavam ao repórter aparecer nas matérias durante as reportagens, o que conferia mais credibilidade ao noticiário.

“Saía-se com uma câmera chamada Auricom, superpesada. Realmente aquilo era um trambolho para quem carregava. A equipe que saía tinha o cinegrafista e um assistente. Às vezes, levávamos também uma câmera mudinha, pequenininha, uma Bell and Howel, linda, mas fazia só imagens. O repórter saía para colher informações. Na redação, o chefe de reportagem avaliava se o assunto merecia uma Auricom ou uma mudinha”, relata a repórter Sandra Passarinho.

Em 1968, o jornalismo e os programas de entretenimento passaram a adotar o Editec, um editor mecânico, não manual, usado no tratamento das fitas. A novidade foi inventada na própria Globo. Os cortes na edição permitiram mais agilidade na sequência das imagens e na finalização dos programas.

Nesse mesmo ano, a Globo inaugurou o link de micro-ondas ligando as emissoras do Rio de Janeiro e de São Paulo, tornando possível a sincronização da programação das duas cidades.