Nos anos 1970, a Globo virou líder de audiência com um modelo de grade de programação horizontal e vertical, exibida de segunda a sábado, e o horário nobre preenchido por duas novelas intercaladas pelo Jornal Nacional, o carro-chefe da programação.


Jornalismo

Nos anos 1970, o jornalismo da Globo se firmou e criou uma nova linguagem jornalística no Brasil, com um modelo que se distanciava do formato radiofônico até então existente no país. O Jornal Nacional, que no início da década já contava com cerca de 150 profissionais trabalhando em sua produção, em todo o Brasil (entre editores, locutores, repórteres e cinegrafistas), tornou-se líder absoluto de audiência na televisão brasileira.

A direção do Jornal Nacional priorizava as imagens, mas não se descuidava do texto, que devia ser coloquial e direto, de fácil entendimento, para facilitar a comunicação. Frases longas e adjetivos deviam ser evitados.

“Todos nós, repórteres, éramos obrigados a escrever bem, do contrário a matéria não ia ao ar”, conta a repórter Glória Maria, que tem boas lembranças do ambiente familiar da Globo quando chegou à emissora, em 1970.

“Antigamente o repórter quase não aparecia. No JN, ele passou a ter um comprometimento maior com a notícia que estava apresentando, passou a participar mais do jornal, tanto que alguns repórteres ficaram célebres”, salienta o editor Alfredo Marsillac, que trabalhou na produção dos primeiros telejornais e programas jornalísticos da TV Globo. Segundo ele, o tipo de noticiário feito na Globo virou quase uma escola. “As outras emissoras começaram a falar uma língua semelhante a da Globo.”, avalia Marsillac.

Ao longo dos anos 1970, mudanças tecnológicas significativas ajudaram a aprimorar o jornalismo. Uma delas foi a utilização do teleprompter em telejornais e programas jornalísticos. O dispositivo, formado por um jogo de espelhos acoplado à câmera de TV, permitiu aos apresentadores lerem os textos das notícias olhando diretamente para a câmera.

“Antes você tinha que ficar com um olho no monitor e o outro no texto, para ir acompanhando. Obviamente que aconteciam falhas, porque casar imagem com texto, durante muito tempo, era muito complicado”, lembra o apresentador Sérgio Chapelin, contando que saía do estúdio com a mão toda suja de tinta azul, graças ao papel mimeografado, porque também ainda não existiam as máquinas fotocopiadoras.

Sérgio Chapelin formou com Cid Moreira uma das mais conhecidas duplas de apresentadores do JN. Quando chegou à emissora, encontrou um espaço simples de trabalho. “O nosso cenário era isso. Duas bancadinhas muito modestas e duas cadeiras de madeira, sem nenhum estofamento e sofisticação. Mas eram ótimas para o diafragma”.

Também foi nos anos 1970 que foram criados o Jornal Hoje, telejornal exibido no horário do almoço, que combinou o noticiário nacional e internacional com uma variedade de assuntos culturais como música, cinema, teatro, literatura e moda; o Jornal da Globo, último noticiário da programação diária da emissora, que, além das notícias da noite, investiu em análises, críticas e opiniões sobre os principais assuntos do dia; e o Bom Dia São Paulo, o primeiro telejornal local matutino da Globo, que deu origem a telejornais similares em outros estados.

Ainda na segunda metade da década, a sucursal de São Paulo teve ampliada sua participação no Jornal Nacional, e a de Brasília ganhou espaço nos telejornais de rede, com o incremento do noticiário político, o que resultou no aumento da equipe de jornalistas. Após a posse do presidente Ernesto Geisel, em 1974, os repórteres passaram a cobrir o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e os ministérios.

No mesmo período, foi inaugurado o escritório da Globo em Londres, um reforço à cobertura do noticiário internacional, válvula de escape para a pressão que a Censura exercia no país. A equipe inicial era formada pela repórter Sandra Passarinho e pelo cinegrafista Orlando Moreira.

Foi ainda nesta década que Armando Nogueira e Alice-Maria criaram o programa jornalístico de vida mais longa da TV brasileira, o Globo Repórter (1973), um formato novo que permitia o aprofundamento das reportagens através da produção de documentários.

O programa teve início com uma equipe fixa de diretores, formada por cineastas premiados do Rio de Janeiro e de São Paulo – como Eduardo Coutinho, João Batista de Andrade, Geraldo Sarno, Washington Novaes, Dib Lufti, Maurice Capovilla e Walter Lima Jr, entre outros – e ganhou espaço na programação registrando momentos decisivos da história do país, além de aprofundar a cobertura de fatos abordados nos telejornais, exibir matérias investigativas e traçar perfis de importantes personalidades brasileiras.

Uma das mais bem-sucedidas criações da época é exibida até hoje nas noites de domingo: o programa Fantástico (1973), uma revista eletrônica de variedades que une jornalismo e entretenimento. O programa já nasceu como um grande mosaico, que misturava, entre várias atrações, reportagens, musicais, humor, números circenses, quadros de mágica e dramaturgia. Foi definido por um de seus primeiros diretores, José Itamar de Freitas, como “um meio-termo entre o Globo Repórter e os telejornais diários”.

“Foi o primeiro magazine feito na televisão no mundo inteiro. Um programa brasileiro que serviu de modelo para vários outros países”, afirma José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Fantástico sempre procurou estar na vanguarda. Representou uma inovação na forma de se fazer jornalismo na televisão brasileira, ao passar em revista os principais assuntos da semana dando às notícias um tratamento mais sofisticado em termos de conteúdo e imagem. Foi o primeiro programa broadcast no Brasil a ter um endereço na internet e o primeiro a ser transmitido real time na internet. Também foi pioneiro na utilização, de forma constante, de microcâmeras em reportagens de denúncia. O cuidado com a linguagem, associado à preocupação de atender a todas as faixas de público esteve sempre presente no trabalho de   suas equipes.  “Uma coisa que sempre norteou muito nosso trabalho no Fantástico foi o seguinte: seriedade não é chatice. Queremos contar as histórias de um jeito mais interessante, inteligente e criativo, usando os recursos que a televisão tem”, ressalta Luiz Nascimento, há 20 anos na direção do programa, que até hoje apresenta quadros e séries produzidas com o envolvimento da área artística. Um dos destaques foi a série em película A Vida Como Ela É... (1996), baseada na coluna homônima publicada pelo escritor Nelson Rodrigues no jornal Última Hora, nos anos 1950.

 “O Fantástico sempre perseguiu esse caminho de ir atrás das tendências. Está sempre tentando se inovar em termos de linguagem. Como as mudanças são muito rápidas, temos que estar sempre muito antenados. O que era novo ontem, amanhã já está velho”, completa Renata Ceribelli, apresentadora do programa ao lado de Tadeu Schmidt.