A estratégia de Roberto Marinho para consolidar a presença diária da Globo na vida de milhões de brasileiros foi lançada no finalzinho da década de 1960. Como pilares, a implantação da rede, o início da produção de novelas que retratavam o cotidiano dos telespectadores e a aposta em um novo modelo de telejornalismo, cuja estrela era o Jornal Nacional


Enchentes do Rio

Imagens das enchentes ocorridas no Rio de Janeiro, 1966. Frame de vídeo/Titularidade TV GloboEm seu primeiro ano, a TV Globo apresentava baixos índices de audiência. Roberto Marinho não titubeou: contratou o principal executivo da TV Rio para reestruturar o setor comercial e, principalmente, reformular a programação de sua nascente televisão.

Walter Clark assumiu a direção-geral da Globo em dezembro de 1965. Em fevereiro de 1966, a emissora interrompeu a programação, durante três dias, para realizar a cobertura completa das enchentes que atingiam a cidade do Rio de Janeiro naquele ano. O apresentador Hilton Gomes entrou no ar de uma escada do lado de fora da emissora, mostrando imagens ao vivo do alagamento da rua onde estava localizado o prédio da TV Globo. Também foram exibidas imagens dos deslizamentos de barrancos em favelas, do desabamento de prédios e da população atingida.

A cobertura jornalística e uma campanha de arrecadação de agasalhos e mantimentos para os desabrigados, batizada de SOS Globo, proporcionaram à TV Globo a simpatia do público carioca. 

“A Globo começou a deslanchar, a ter respeito do público, depois dessa enchente. A cobertura foi muito intensa. Algo que nunca tinha sido visto pela televisão”, destaca o repórter cinematográfico Orlando Moreira, que participou da cobertura da tragédia.

O ator Milton Gonçalves lembra o sucesso da campanha de assistência aos desabrigados: “O auditório ficou lotado de mantimentos. Os caminhões chegavam e saíam carregados. Revelou-se ali um espírito de comunidade do estado do Rio de Janeiro que fez a Globo subir tremendamente no conceito do público”. Segundo o ator, em qualquer lugar do Rio que as equipes chegassem com o caminhão da Globo para gravar eram acolhidas com entusiasmo. “Ofereciam a sala para os atores e atrizes descansarem, os quartos para se trocarem, serviam água e café... E assim a gente foi crescendo”.

O empenho dos profissionais da TV Globo na cobertura das enchentes mereceu uma carta de Roberto Marinho. Na carta, o dono das Organizações Globo parabenizava a equipe da emissora pelo trabalho realizado durante as chuvas que castigaram a cidade, afirmando que seus funcionários souberam se colocar “na vanguarda das emissoras cariocas”. Abaixo, o texto da carta, na íntegra:

Aos meus companheiros da TV Globo:

Dirijo-me aos prezados companheiros da TV Globo para, num afetuoso abraço, endereçar à magnífica equipe, e a cada um de vocês, o meu mais sincero reconhecimento pela forma admirável com que se portaram nos dias e noites em que a nossa Cidade se viu castigada por implacável catástrofe, que manteve, inclusive, em permanente ameaça, o nosso próprio edifício. (...) Colocando-se na vanguarda das emissoras cariocas, vocês souberam galvanizar a opinião pública, sensibilizar a Cidade e emocionar os corações que, talvez sem o apelo da TV Globo, não tivessem respondido tão rapidamente aos imperativos da solidariedade humana. Vocês ganharam galhardamente essa batalha. (...) É o que lhes quero dizer, nesta carta em que à grande equipe e a cada um, individualmente, expresso a segurança da minha estima, do meu apreço e da minha admiração.”

Transmissões ao vivo não eram muito comuns na época, por conta do tamanho e do peso das câmeras, e estavam praticamente restritas à cobertura esportiva. Com o sucesso da experiência, porém, Walter Clark decidiu fazer a cobertura ao vivo do Carnaval, iniciada em 22 de fevereiro de 1966. A Globo transmitiu os desfiles dos blocos e escolas de samba realizados no Centro da cidade, e o baile carnavalesco do hotel Copacabana Palace.