Inauguração do Projac, aquisição de equipamentos digitais, aposta no jornalismo investigativo. Nos anos 1990, Roberto Marinho redobrou o investimento em novos talentos e tecnologia, aprimorando cada vez mais a programação e ratificando o chamado Padrão Globo de Qualidade. Em 1997, Boni virou consultor da vice-presidência e Marluce Dias da Silva assumiu o cargo de diretora-geral da Rede Globo. 


Dramaturgia

Cássio Gabus Mendes e Malu Mader em Anos Rebeldes, 1992. Jorge Baumann/TV GloboOs anos 1990 na dramaturgia da Globo foram aqueles em que uma minissérie ajudou a mobilizar a população contra a corrupção que envolvia o presidente da República. Anos Rebeldes (1992), de Gilberto Braga, ambientada nos “anos de chumbo” da ditadura, serviu de inspiração para as manifestações dos estudantes pelo impeachment de Fernando Collor de Mello. Os caras-pintadas foram às ruas em busca de mudanças.

A década também marcou o lançamento de novos formatos de programas, como o seriado Malhação (1995), inspirado nas soap operas americanas – o programa virou celeiro de jovens atores da Globo –, e o humorístico Sai de Baixo (1996), gravado ao vivo em um teatro de São Paulo, com a presença de uma plateia.

Com A Justiceira (1997), seriado policial criado por Daniel Filho e protagonizado por Malu Mader, a Globo teve seu primeiro programa gravado em película de 35mm. Quatro anos antes, o último episódio do seriado Retrato de Mulher, estrelado por Regina Duarte, havia inaugurado na teledramaturgia a filmagem em película de 16mm.

As novelas e minisséries também mantiveram os telespectadores com os olhos grudados na tela da Globo, tratando de  temas como preconceito racial, gravidez precoce, homossexualismo, conflito entre latifundiários e sem-terra, entre tantos outros assuntos de interesse nacional.

“A incontestável aprovação de dezenas de milhões de espectadores é a melhor prova do acerto de critérios adotados desde o primeiro dia: a busca incessante da qualidade, o desejo permanente de renovação – e, sempre, o respeito pelo público.” (Roberto Marinho)

O Rei do Gado (1996), de Benedito Ruy Barbosa, abordou pela primeira vez em uma novela a reforma agrária e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Foi exibida dois meses após a morte de 19 trabalhadores sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará. O tema teve grande repercussão na mídia e na sociedade em geral. 

A Próxima Vítima, enredo policial cuja espinha dorsal era centrada em três perguntas – “quem matou?”, “quem será a próxima vítima?” e “por quê?” – foi apontada como um dos maiores sucessos do autor Silvio de Abreu. Era suspense do começo ao fim.

O realismo fantástico voltou ao ar nas novelas assinadas por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn. A Indomada (1997), por exemplo, era ambientada em uma cidade fictícia de colonização inglesa, onde os personagens misturavam expressões em inglês em suas falas.

A megaprodução Terra Nostra (1999), outra de Benedito Ruy Barbosa, reeditou as novelas de época, levando para o horário nobre a história da imigração italiana no final do século XIX, a partir do romance dos jovens Matteo (Thiago Lacerda) e Giuliana (Ana Paula Arósio).

As minisséries foram representadas, ainda, por produções como Agosto (1993) – adaptação do romance de Rubem Fonseca, que trazia como pano de fundo os últimos dias do presidente Getúlio Vargas no poder e foi muito elogiada por sua reconstituição de época. E O Auto da Compadecida, um dos pontos altos do período. Baseada na obra homônima de Ariano Suassuna e dirigida por Guel Arraes, foi a primeira minissérie filmada em película, levada ao cinema no ano seguinte, em versão reeditada.

Foram anos de grandes produções na teledramaturgia, cujo ápice foi a inauguração, em 1995, da Central Globo de Produção, o Projac, com as gravações de Explode Coração, de Gloria Perez. A novelista teve o mérito de incluir em sua trama uma campanha social, enfocando a exploração do trabalho infantil e o desaparecimento de crianças. Fora da ficção, mais de 60 crianças foram encontradas graças à exibição na novela de depoimentos de mães e fotos de filhos desaparecidos.