A TV Globo nasceu em um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil. Três anos após ser inaugurada, foi decretado o Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, quando o regime militar intensificou a vigilância sobre os meios de comunicação. A emissora de Roberto Marinho não escapou da censura, diretamente proporcional ao crescente aumento de sua audiência. 


A Globo sob o AI-5

Certificado emitido pela Censura Federal. Fundo DCDP / BR AN BSB.NSO Jornal Nacional e as novelas foram os alvos mais visados, pela penetração que tinham junto ao público. A cobertura jornalística dos assuntos nacionais era fortemente censurada pelo governo, que também atuava com mão de ferro na teledramaturgia, vetando temas, cenas e diálogos. Roberto Marinho manteve uma postura firme em defesa de seus profissionais. “A censura era brutal em cima do Dr. Roberto. O General dizia assim: ‘Se você não fizer o que nós queremos, nós tiramos você do ar’, ameaçava. Dr. Roberto respondia: ‘Está bem, então faça isso. Nos tire do ar e o senhor vai ver o que acontece no país’. Eram mais ou menos assim as conversas”, conta Joe Wallach.

“Papai era um democrata, que acreditava em total liberdade de opinião. Sempre defendeu isso, e também a liberdade de contratar pessoas”, defende Roberto Irineu, lembrando que, enquanto outros veículos, pressionados pelo governo, demitiram profissionais, Roberto Marinho jamais demitiu ninguém. Para o filho mais velho do Dr. Roberto, a Globo, aliás, deve muito aos comunistas. “Como o papai dava acolhida, tivemos maravilhosos talentos na emissora. Era o único lugar em que podiam trabalhar. Na Globo, nunca se pediu carteirinha”, ressalta Roberto Irineu, referindo-se a uma série de profissionais ligados ao Partido Comunista Brasileiro que foram contratados pela empresa.

O ator Mário Lago era um deles, e viveu uma passagem engraçada com Roberto Marinho. Em 1966, quando estreou na emissora no papel de um coronel nazista na novela O Sheik de Agadir, de Glória Magadan, ele precisou de um adiantamento para pagar um título em protesto, e procurou o dono da empresa. "Dr. Roberto, é ótimo trabalhar na sua estação, mas ela tem um defeito. Paga em dia." Naquela época, o pagamento era quinzenal. Mário Lago explicou que “às vezes, entre um pagamento e outro, surge uma surpresa, um inesperado...”. Roberto Marinho perguntou de quanto era o título e tranquilizou o ator. Em pouco tempo, apareceu o secretário de Walter Clark com um cheque nas mãos. “Roberto Marinho é o melhor patrão do mundo”, afirmou Mário Lago em entrevista ao Memória Globo, em 30 de junho de 2000.

A atuação da Censura sobre a TV Globo pode ser observada em trechos do Documento da Divisão de Segurança e Informações, do Ministério da Justiça, datado de 24 de maio de 1971, com o assunto: “Infiltração de Comunistas e Aliados na Televisão”. O documento, carimbado com a inscrição “A Revolução de 64 é irreversível e consolidará a democracia no Brasil”, apontava para a formação de células comunistas dentro dos principais órgãos de imprensa, notadamente nas estações de televisão. Dizia que os profissionais identificados como democratas estavam sendo gradativamente afastados e substituídos em suas funções “quando elementos esquerdistas passavam a ocupar postos de destaque”, e acusava o ator Carlos Vereza e o diretor Dias Lopes como dois dos principais comunistas que atuavam na Globo.

Em agosto de 1969, a TV Globo chegou a ser retirada do ar durante algumas horas, como punição pela leitura de uma nota sobre a doença do presidente Costa e Silva, no programa Ibrahim Sued Repórter, versão adaptada para a televisão da coluna social publicada pelo jornalista Ibrahim Sued em O Globo e em outros jornais desde o início da década de 1950. Na década de 1970, houve ameaças de retirar a concessão do canal.

Em 1977, Alice-Maria, então diretora-executiva da Central Globo de Jornalismo, e Luís Edgar de Andrade, chefe de redação do Jornal Nacional, foram convocados a depor no Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS), acusados de pertencerem ao Partido Comunista Brasileiro. Na ocasião, Roberto Marinho fez questão de acompanhá-los para garantir a integridade física de seus funcionários.

“No dia do depoimento, às 14h, ele nos levou em seu carro, uma perua, à delegacia, na Rua da Relação, 40, terceiro andar, onde nos esperavam o diretor do Departamento Geral de Investigações Especiais, José Nicanor, o delegado de Polícia Política e Social, Francisco de Paula Borges Fortes, e um representante do Estado-Maior do Primeiro Exército, major Araújo. O major estava no gabinete a mando do Almeida, para assegurar que seríamos interrogados com urbanidade – urbanidade era o termo. Chegamos lá ao DOPS, Alice-Maria e eu. Eu fui de paletó e gravata. O delegado Borges Fortes dirigiu-se ao Dr. Roberto e disse: ‘Se quiser, Dr. Roberto, o senhor pode esperar enquanto seus funcionários prestam depoimento, mas não quero prendê-lo aqui’. De repente ele se deu conta de que era uma gafe dizer ‘prendê-lo aqui’, e corrigiu o lapso: ‘Desculpe-me, falei prender no sentido figurado’. Foi assim que, nesse dia inesquecível, Alice-Maria e eu voltamos à TV Globo a tempo de editar o Jornal Nacional, sãos e salvos, sem o menor arranhão. Eu faço questão de dar esse depoimento sobre o comportamento do Dr. Roberto”, conta Luís Edgar de Andrade.

“O fim da censura estatal fez mais do que eliminar as barreiras à criatividade e à expressão do pensamento; ele também impôs aos meios de comunicação o dever de estabelecer seus próprios limites”. (Roberto Marinho)   

Nessa fase, era comum a presença da Polícia Federal e de oficiais do Serviço Nacional de Informações (SNI) na emissora. No mural da redação, havia uma lista de assuntos proibidos e nomes de pessoas que não poderiam ser entrevistadas ou mencionadas. “Tínhamos os militares presentes o tempo todo na emissora. Dependendo da circunstância, havia um ou dois coronéis dentro da televisão com a finalidade de dizer o que podia ou não ir para o ar. Em períodos mais brandos, eles telefonavam para dizer o que não podia ser exibido. Começar o Jornal Nacional com a censura que tínhamos a partir do AI-5 foi um período muito duro.”, salienta Roberto Irineu.

Armando Nogueira destacava que havia uma grande diferença no tratamento que o governo dispensava ao jornal e à televisão, já que, por ser uma concessão pública, a TV era muito afetada em sua liberdade de expressão. “As pessoas diziam que a Rede Globo era porta-voz do governo mas, na realidade, ninguém estava querendo saber qual era o estado de espírito dos jornalistas, dos radialistas, do Dr. Roberto Marinho tendo que se submeter a eles. Qualquer um pode tirar um alvará e criar um jornal, que é uma entidade de direito privado. Mas nem todo cidadão pode ter uma estação de televisão. Até porque o espectro, o espaço aéreo, é limitado, alguém tem que administrar esse espaço, distribuir esses canais. Coube ao governo. Ora, o poder que concede é o poder que censura”, argumentava o jornalista.