ZYD-81, TV Globo, canal 4 do Rio de Janeiro. A televisão de Roberto Marinho nasceu em um prédio no bairro do Jardim Botânico, na zona sul da cidade. O primeiro do Brasil especialmente projetado para abrigar uma emissora de TV. 


Fase de testes

A inauguração foi precedida por vários testes de transmissão, levados a cabo durante o mês de março. Nos testes, eram exibidos filmes americanos em preto e branco, que iam ao ar várias vezes por dia. Um deles ficou muito conhecido: mostrava um barco descendo o rio, com a canção Moon River como fundo musical. 

No dia 31 de março de 1965, quando o golpe militar completava um ano, todas as emissoras deveriam exibir um pronunciamento em cadeia nacional em comemoração à data. A Globo, porém, que ainda não havia estreado, não foi informada, e, às 20h, o que se viu na tela foi o barco descendo o rio. “No dia seguinte, saiu em todos os jornais: ‘A Globo começa muito bem, boicotando o pronunciamento militar’. Nós éramos o único meio de comunicação que não estava transmitindo o pronunciamento”, lembra o engenheiro Herbert Fiuza.

A TV Globo deveria ser lançada oficialmente em 5 de abril. Mas quando faltavam uns três dias para a estreia, os profissionais da área de engenharia convenceram Roberto Marinho a adiar a data. O transmissor só dava pane, e seria imprudência estrear com o risco de sair do ar a qualquer instante. Convencido, Roberto Marinho estendeu o prazo em 20 dias, e a estreia foi adiada para o dia 26 de abril.

As dificuldades foram muitas para que a Globo estreasse no dia combinado. Mauro Salles fez um levantamento dos programas para apresentar um relatório a Roberto Marinho e constatou que, dos 100 filmes disponíveis, apenas oito estavam dublados. “Não tinha nada pronto, estava um horror. Eu disse que não dava para inaugurar no dia 26 de abril”, relata o então diretor de jornalismo e programação da emissora. Roberto Marinho, claro, reagiu: "Como é que é? Nós já assumimos um compromisso, eu até já dei entrevista. Não vou permitir que ninguém me faça descumprir um compromisso. Nós vamos inaugurar. Quantas horas você tem?". Salles respondeu que tinha quatro horas de jornalismo e três de programação, nada mais do que isso. Dr. Roberto foi taxativo: "Tenta conseguir mais umas duas".

As transmissões das emissoras de TV duravam cerca de seis, sete horas por dia, naquela época. A TV Globo foi a primeira que, um ano antes de sua inauguração, anunciou que iria transmitir das 11h até uma ou duas horas da madrugada. Após as dificuldades da estreia, o anúncio foi cumprido. “Ela foi a primeira a investir intensamente na compra e dublagem de filmes de qualidade. Na sua programação, tinha sessão das duas, das dez e da meia-noite. Eram três sessões diárias”, acrescenta Mauro Salles.

Durante 15 dias antes da estreia, Mauro Salles e outros profissionais praticamente moravam na emissora. “Eu tinha cama dentro da TV Globo para conseguir inaugurar na data”, conta ele. O projeto era rodar cincos dias de número zero, para fazer os ajustes necessários e consertar os possíveis erros. "Trabalhava-se muito com slides, e saía slide de cabeça para baixo, slide invertido...”, explica Salles. Na cobertura do noticiário nacional, por exemplo, eram usados os arquivos do jornal O Globo e da Rádio Globo, com o aproveitamento de fotos, transformadas em slides para a inserção no vídeo. Por uma série de contratempos, a equipe teve apenas um dia de número zero antes do lançamento. Roberto Marinho, porém, manteve seu compromisso. “A TV Globo foi inaugurada no dia e na hora, com todos os seus programas”, diz Mauro Salles. O jornalista pediu demissão em agosto de 1965, quatro meses após a inauguração a Globo, para abrir sua empresa de publicidade.