Roberto Marinho inaugurou a Globo em 26 de abril de 1965, quando tinha 60 anos de idade. Para realizar seu sonho, o jornalista enfrentou uma CPI e empenhou todos os seus bens. 


Uma aposta nos talentos

A criação da Globo movimentou o mercado de televisão no Brasil, fazendo com que vários profissionais, tanto na área jornalística quanto artística, encontrassem na emissora uma segunda casa. Roberto Marinho não poupava esforços e investimentos para ter os melhores talentos, de todas as áreas, em seu quadro de funcionários. Ao apostar no artista brasileiro, estimulava a produção nacional. E vice-versa. Além disso, contribuiu para profissionalizar o mercado de trabalho na televisão. Até então, artistas, radialistas e outras profissões não tinham no mercado de TV o reconhecimento necessário para exercer suas atividades.

“Dr. Roberto, é uma coisa incrível. Enquanto as pessoas estavam se aposentando aos 60 anos, ele estava começando a TV Globo, querendo impor um trabalho de qualidade”, ressalta Glória Menezes. A atriz estreou na emissora em 1967, como par romântico do marido, Tarcísio Meira, na novela Sangue e Areia, de Janete Clair. Recém-saídos da TV Excelsior, os dois consolidaram suas carreiras na Globo, transformando-se em um dos casais de maior sucesso da televisão brasileira.

Sempre correu à boca pequena que Roberto Marinho não admitia atraso no pagamento dos salários dos funcionários. Não era folclore. “Nunca recebi um dia atrasado na TV Globo. Aquela fama que a televisão tinha de que o cara trabalhava quatro meses e só recebia um mês, nunca aconteceu na TV Globo, graças a Deus. O Dr. Roberto nesse ponto era extraordinário. E ainda havia as nossas gratificações. Você trabalhava, ralava, mas tinha as compensações”, conta o produtor Ruy Mattos.

“As outras emissoras não ofereciam contratos longos, segurança. Dr. Roberto proporcionou essa tranquilidade ao profissional brasileiro. A gente tem que tirar o chapéu”, destaca Agildo Ribeiro, que dividiu com Paulo Silvino a apresentação de um dos primeiros humorísticos da emissora, o TVO-TV1.

Roberto Marinho deu carta branca para que tocassem sua empresa. Como bom empreendedor, porém, acompanhava de perto o dia a dia da televisão. Não gostava de reuniões coletivas, era adepto da conversa mano a mano. De fala mansa, sabia ouvir e dar o seu recado. Sempre se referindo a seus funcionários como “companheiros”.

“A sabedoria, a capacidade de pensar o futuro além da sua própria vida, era uma coisa fantástica. Ele não só falava em companheirismo, mas exercitava esse sentimento, o que estendeu aos seus filhos”, destaca Roberto Buzzoni, ex-diretor de programação da Globo.

Para o ator e humorista Luiz Carlos Mièle, a Globo foi a primeira televisão a investir tanto no elemento humano quanto no técnico. Mièle tem uma história curiosa sobre a atuação de Roberto Marinho na emissora. Ele conta que o patrão lhe pediu, em surdina, para fazer um dossiê sobre o funcionamento das áreas da emissora. Seu objetivo era entender mais dos departamentos e do dia a dia da empresa, para não ser pego de surpresa. Mas ele não queria que os diretores soubessem. Alguém sugeriu que Mièle poderia ajudá-lo. "Ele me chamou e falou: ‘Meu filho, como vai, tudo bem? Sente-se. Você sabe o que é maquinaria?’. ‘Sei, sim senhor’. ‘Sabe o que é contrarregra?’ ‘Sei, sim senhor’. ‘Departamento de projeção?’. Sei, sim senhor’. ‘Eu quero que você faça um dossiê disso aqui. Quantos homens tem na contrarregra, quantos homens tem na maquinaria, o que fazem, para que serve’. Eu fiz um dossiê de várias páginas, dizendo qual era a estrutura de um programa de televisão. Claro que ele me pediu sigilo, então nenhum dos diretores da TV Globo até hoje soube disso. Foi engraçado. Enquanto ele não dominou a Globo e se acostumou com o processo, ele não ia lá”.

“Quando vim para cá pela primeira vez, que não tinha Walter Clark, não tinha Boni, a gente conversava diretamente com o Dr. Roberto. E ele sempre manifestou que nós nos preocupássemos com o sentido social da televisão, e com a ética” (Maurício Sherman, diretor)

Octávio Florisbal, ex-diretor geral, atualmente no Conselho de Administração das Organizações Globo, lembra que a contribuição de Roberto Marinho também foi decisiva para o fortalecimento do mercado publicitário brasileiro. O empresário apoiou várias iniciativas que foram fundamentais para o desenvolvimento da publicidade no Brasil, como o apoio à criação do Conar (Código Nacional de Autorregulamentação Publicitária). “Dr. Roberto via o mercado publicitário como fonte de receita para o crescimento dos veículos de comunicação. Ele tinha a percepção de que todo veículo precisa de independência econômica para ter independência editorial e, assim, fazer a defesa do livre pensamento e da livre iniciativa”.

Muitas são as histórias da atuação de Roberto Marinho na Globo. Algumas são folclóricas. Em seus 30 anos de TV Globo, Boni, reúne algumas delas:

“Um dia o Dr. Roberto me perguntou: ‘O que estão fazendo essas pessoas aqui, de pijama, de bata, todo mundo de sandália?’ Porque eu havia trazido para cá o Daniel Filho, o Roberto Talma... E todo mundo cabeludo naquela época, 1967, usando quimonos e coisas desse tipo. Eu respondi: ‘Dr. Roberto, o trabalho está muito duro e o pessoal está dormindo aqui na emissora. Eles estão de pijama porque eles acordam e já vão trabalhar.’ Ele perguntou: ‘Você acha que isso vai dar certo?’ Eu falei: ‘Acho que vai, Dr. Roberto. O senhor tenha um pouquinho de paciência, que vai dar.’”