Roberto Marinho começou a colecionar quadros na década de 1930. Não recorria a marchands. Era amigo de pintores e adquiria as peças diretamente em ateliês. Comprava por opção pessoal, com o coração. Frequentava vernissages, exposições e bienais, desenvolvendo o gosto refinado pela arte e pela cultura que o acompanhou a vida inteira.


Artistas e núcleos

Pancetti e Portinari eram os preferidos de Roberto Marinho. Mas outros artistas ocupavam um lugar especial na coleção, como Lasar Segall. O jornalista demonstrava contentamento por ter adquirido obras do pintor antes de ele vir morar no Brasil.

Junto com Pancetti e Portinari, as obras de Guignard e Di Cavalcanti estão entre os quatro núcleos mais importantes da coleção Roberto Marinho. Outros artistas também são lembrados pelo coordenador da coleção, Joel Coelho. Na década de 1990, o empresário comprou 40 obras e desenhos de Ismael Nery. “Ele comprou um grande lote que era da ex-coleção de Chaim Hammer, um psicanalista estudioso da obra de Ismael Nery. Como Dr. Roberto, o pintor tinha paixão pelo Rio de Janeiro.” Ismael Nery morreu com 33 anos.

Também nos anos 1990, adquiriu um óleo sobre tela de Marc Chagall, de 1970. As pessoas não achavam o quadro importante mas, segundo Joel, Roberto Marinho dizia: “Mas eu gosto.” Como gostava também, diz Joel, do escultor Franz Krajcberg.

Outro núcleo essencial da coleção é o de pintura abstrata. Inclui Antonio Bandeira e Maria Helena Vieira da Silva, que representam a influência da abstração da arte europeia que tinha como referências o ambiente, as cidades e as luzes urbanas.

Vindos de outra origem, Manabu Mabe e Tomie Ohtake também venderam obras para Roberto Marinho. O grafismo da caligrafia e a harmonia oriental, presentes na arte tradicional japonesa, e a cor diversificaram o abstracionismo na coleção do jornalista. 

Não era somente em casa que o jornalista apreciava suas obras de arte. Ele gostava de decorar os escritórios com quadros do acervo. Quando recebia visitas no jornal O Globo, tirava fotos com uma tela de Di Cavalcanti atrás. Tinha também quadros de Antonio Bandeira e de Jean Lurçat.  Na TV Globo, estavam expostos trabalhos do escultor de arte popular Geraldo Teles de Oliveira, o  G.T.O., e dois Mabes.

Em 1994, Roberto Marinho foi escolhido patrono da 22ª Bienal Internacional de São Paulo.

Conversa com De Gaulle

Em casa ou nas empresas, as obras de arte tinham que estar próximas a Roberto Marinho. Isso lhe causava bem-estar e sensação de conforto. Ele gostava de conversar sobre elas com quem quer que fosse. Muitas vezes, ficava surpreso quando alguém menosprezava, mesmo que de forma sutil, um trabalho artístico. O coordenador Joel Coelho lembra de uma história contada por Roberto Marinho depois de uma visita ao gabinete do general Charles De Gaulle, em Paris: “Roberto Marinho ficou impressionado com o fato de De Gaulle não ter nenhuma obra de arte. Então, perguntou ao general se ele não gostava de obras de arte. De Gaulle teria aberto a janela e respondido: ‘Não há necessidade de obra de arte, olha a paisagem que eu tenho’.”