Roberto Marinho tinha sensibilidade para as artes plásticas, mas também foi um apreciador de música, teatro, cinema e literatura. Desenvolveu um gosto apurado pela cultura que o acompanhou por toda a vida. Abriu a casa do Cosme Velho para apresentações artísticas. Criou uma farta biblioteca e fez parte da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil. A consagração veio em 1993, quando se tornou “imortal” da Academia Brasileira de Letras.


Cosme Velho é uma festa

Roberto Marinho começou a construir a casa do Cosme Velho em 1939. Ele queria transformar a propriedade num lugar aprazível de convívio com a família e amigos. A obra foi inspirada no antigo Solar de Megaípe, em Pernambuco, uma construção do século XVII. O jornalista preservou a mata ao redor, o Rio Carioca e o lago, onde cultivava carpas. Na entrada principal, encontra-se uma fonte italiana do século XVIII. Nos jardins, projetados por Burle Marx, ficavam os flamingos.

A casa do Cosme Velho abrigou importantes atividades relacionadas à arte e cultura. Roberto Marinho gostava de promover apresentações musicais, teatrais e de artes plásticas, sessões de cinema, jantares para os acadêmicos e convidados e festas. Alguns desses eventos entraram para a história da residência.

Em meados dos anos 1940, o jornalista fez uma recepção para artistas e intelectuais. Estavam presentes Elsie Lessa, Raymundo de Castro Maya, Frederico Lage, Orígenes Lessa, Dulcina de Moraes, os pianistas Vilma Graça e Waldemar Henriques, que fizeram pequenas apresentações musicais, e as bailarinas Lerkova e Volkova. A recepção foi noticiada pela revista Rio, em 1944.

Apresentação da peça teatral Um Deus Dormiu Lá em Casa, na residência de Roberto Marinho, no Cosme Velho. Paulo Autran, Guilherme Figueiredo, Stella Marinho, Roberto Marinho, Carlos Thiré, Tonia Carrero e Armando Couto, 12/1949. Arquivo/Memória GloboQuatro anos depois, foi promovido um encontro que reuniu a pintora Djanira, os escritores José Lins do Rego e Nelson Rodrigues, e os atores Dulcina e Procópio Ferreira. A recepção teve a apresentação de Dorival Caymmi. Em 1949, a peça de teatro Um Deus Dormiu Lá em Casa, de Guilherme Figueiredo, foi encenada nos jardins do Cosme Velho. 

No ano seguinte, Roberto Marinho e a mulher Stella receberam no Cosme Velho um quadro de Modigliani comprado por Assis Chateaubriand. Trazida da Europa, a tela foi levada para a casa do jornalista, que ofereceu uma festa para amigos. Estiveram presentes Herbert Moses, Hermes Lima, Euvaldo Lodi, o bailarino Serge Lifar, Mario Oswald, Cyro de Freitas Valle, San Tiago Dantas, Raymundo de Castro Maya, Nina Barcinska, entre outros. 

Outro evento que acabou nas páginas da revista Rio, em 1950, foi o jantar em homenagem ao ator francês Jean Louis Barrault e para a atriz Madeleine Renaud. Entre os convidados, Afonso Arinos, Cyro de Freitas Valle, Jean Manzon e Mario Oswald, entre outros. Os músicos Pixinguinha, Benedito Lacerda e Meira tocaram para os amigos.

Em homenagem ao sucesso da peça Dama das Camélias, em 1951, Roberto Marinho recepcionou diretores e elenco do Teatro Brasileiro de Comédia. Cacilda Becker, Maurício Barroso, Rodolfo Mayer, Gilson Amado, Paschoal Carlos Magno, Carlos Vergueiro, entre outros, estiveram na casa do Cosme Velho. A revista Rio também cobriu o evento.

Ainda na década de 1950, houve uma recepção no Cosme Velho com apresentação da cantora Amália Rodrigues. Em 1956, Roberto Marinho ofereceu em sua casa uma homenagem a Henrique Pongetti, pela sua peça A Manequim.

Os músicos Meira, Pixinguinha e Benedito Lacerda tocam na residência de Roberto Marinho, no Cosme Velho. Festa em homenagem ao ator Jean Louis Barrault, 06/1950. Arquivo/Memória GloboNos anos 1960, conta Joel Coelho, coordenador da coleção do jornalista, Roberto Marinho e Stella receberam Pixinguinha com o conjunto dele. “Dr. Roberto tinha um certo fascínio pela cultura popular. Esses saraus com Pixinguinha chegaram a ser publicados na revista Rio.” Foi um período, segundo Joel, em que o empresário conviveu intensamente com músicos e artistas da época na casa do Cosme Velho. 

Em 1963, Roberto Marinho homenageou o empresário canadense Roy Thompson, magnata das comunicações. Na recepção, show de passistas, bossa-nova e vários ritmos populares brasileiros. Em 1968, o compositor Tom Jobim estava entre os convidados da festa oferecida por Roberto Marinho para assistir ao Festival Internacional da Canção.

Festa para os atores da TV Globo; almoço em homenagem a Alfred Taubman, dono da Sotheby’s, de Nova York; jantares para convidados e organizadores das exposições Rodin e Picasso, e para os imortais da ABL foram outros encontros promovidos na casa do Cosme Velho.