Roberto Marinho tinha sensibilidade para as artes plásticas, mas também foi um apreciador de música, teatro, cinema e literatura. Desenvolveu um gosto apurado pela cultura que o acompanhou por toda a vida. Abriu a casa do Cosme Velho para apresentações artísticas. Criou uma farta biblioteca e fez parte da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil. A consagração veio em 1993, quando se tornou “imortal” da Academia Brasileira de Letras.


Óperas imperdíveis

No Brasil ou nos Estados Unidos, Roberto Marinho não perdia uma temporada lírica. Era frequentador assíduo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e do Metropolitan e Lincoln Center, em Nova York. Numa entrevista ao editor José Mário Pereira, o jornalista e empresário falou do seu contato com a música:

JMP — O senhor é sempre visto em concertos. Qual a sua relação com a música?

RM — Tenho uma relação visceral com ela: ouço música toda manhã. Por parte de mãe, tenho sangue italiano, e é possível que venha daí essa afinidade.

JMP — Quais as gravações de ópera que considera imperdíveis?

RM — É difícil, há tantas. Mas, de imediato, e correndo o risco da omissão, sugiro o Don Giovanni, de Mozart, regido por Carlo Maria Giulini, com o barítono Eberhard Wächter no papel-título; o Otelo, de Verdi, regido por Herbert von Karajan e o tenor Mario del Monaco no papel principal; e a Tosca, de Puccini, por Victor de Sabata, com Maria Callas, Giuseppe di Steffano e Tito Gobbi. Poderia, ainda, aconselhar a integral da Tetralogia, de Wagner, por Karl Böhm.

JMP — Como o senhor classifica o seu gosto musical?

RM — Em música, sou eclético. Gosto dos românticos, em especial Chopin, de Mascagni e Verdi, mas posso também enfrentar, sem pânico, as muitas horas da Tetralogia, de Wagner.

JMP — Qual o grande intérprete de Chopin?

RM — Entre os antigos, sem dúvida alguma, Alfred Cortot. Entre os modernos, Claudio Arrau.

JMP — É verdade que foi amigo das cantoras Claudia Muzio e Gabriela Besanzoni?

RM — É, sim. Claudia Muzio, sempre que vinha ao Rio, me procurava. Levei-a, várias vezes, a conhecer lugares pitorescos do Rio. Ela me escrevia cartas com frequencia. De Gabriela Besanzoni tenho inúmeras recordações. Fui muito à casa dela, hoje o Parque Lage. Era uma mulher de muito encanto pessoal. E, como intérprete, da Carmen, de Bizet, insuperável.

Liana Coimbra Faria, secretária de Roberto Marinho na TV Globo, lembra que o jornalista gostava de cantarolar árias de óperas. “Estávamos eu, Dr. Roberto e D. Lily voltando de Brasília. No avião, o casal cantou ópera a viagem inteira. Eu fiquei maravilhada. A memória dele era maravilhosa.”