Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


21 de abril

O Globo, 21/04/1986, p. 1. Arquivo / Agência O GloboA força de Tancredo evidenciou-se na hora da abertura quando, de um lado, os governantes queriam realizá-la gradativamente, com receio do povo, e de outro lado, o próprio povo não acreditava na boa fé dos governantes.

Essa mútua desconfiança criava um clima de tensa expectativa no país. Tancredo ergueu a sua voz para dizer que era preciso acreditar no projeto de abertura e no povo brasileiro, exigindo a sua presença nas praças públicas.

Os grandes comícios revelaram a disposição pacífica da população e o anseio nacional por eleições diretas.

Quando o pleito direto se tornou inviável, Tancredo mais uma vez reiterou a sua confiança no povo, propondo a sua adesão à campanha sucessória pelo Colégio Eleitoral. Foi um gesto de coragem e de fé no entendimento dos milhões de brasileiros que, empolgados pelas diretas, sofrendo a decepção do não atendimento, compreenderam que era necessário atender à convocação para uma nova cruzada.

Ao mesmo tempo Tancredo insistia em afirmar que o caminho para a democracia era o da transição pacífica e da conciliação. O país não deveria ingressar numa fase de antagonismo ao regime que se encerrava, mas de construção de uma nova república.

O acerto dessas duas linhas fundamentais de sua pregação evidenciou-se na vitória esmagadora do seu nome na eleição de 15 de janeiro do ano passado, para a qual contribuíram as forças da oposição e também correntes que se rebelaram contra a situação, restabelecendo o clima da esperança em todas as camadas da população e em todos os recantos do país.

Restava comprovar-se no curso futuro do seu governo se essa unidade seria mantida na luta para a solução dos graves problemas econômicos e sociais que se nos deparavam.

Ocorreu, então, a tragédia de sua agonia e morte, estabelecendo um sentimento comum de angústia em que todos os cidadãos deste país se identificaram como em nenhum outro momento da nossa história. Desse modo, a lição política de Tancredo consumou-se no dia 21 de abril, quando se firmou definitivamente a comunhão de propósitos dos brasileiros de construir mesmo uma nova república.

Ninguém absorveu melhor essa herança de princípios do que José Sarney. A sua decisão de manter o ministério e, na primeira reunião, ler a mensagem com que Tancredo antecipava o seu programa não foi apenas um ato de humildade, mas uma demonstração de entendimento político e de grandeza.

Não se tratou de mero gesto simbólico, pois os compromissos se transformaram em atos de governo, O combate à inflação desenvolveu-se sem apelo à recessão. Unificaram- se os diversos orçamentos da União, assegurando-se o controle e a transparência das contas públicas, como primeiro passo para a reforma fiscal de dezembro que tornou possível a correção do déficit. No âmbito internacional a negociação do endividamento prosseguiu numa linha de discussão pragmática e racional, adequando-se as propostas do sistema financeiro mundial aos imperativos de nossa soberania.

O grande momento, todavia, em que José Sarney deu continuidade à lição de Tancredo foi a 28 de fevereiro, quando se decidiu a convocar o povo para colaborar na reforma da economia brasileira, extinguindo a correção monetária e estabilizando o custo de vida.

A resposta do povo teve as dimensões das grandes campanhas que assinalaram o surgimento da Nova República. As medidas do plano de estabilização — para cuja conscientização por parte do povo empenhamos toda a força do nosso sistema de comunicação — estão tendo êxito porque o povo acreditou e continua tendo fé na palavra do presidente da República.

Nessas condições torna-se necessário, acima de tudo, manter-se essa credibilidade. Caso as circunstâncias e a evolução do processo econômico exijam aperfeiçoamento ou alterações ou, até mesmo, novos sacrifícios, é preciso que o governo tenha a coragem de propô-los ao povo com toda a clareza. A maior homenagem que se pode prestar a Tancredo Neves neste dia é manter-se viva a sua advertência de que a nação só pode ser conduzida com a verdade.

Roberto Marinho. O Globo, 21/4/1986