Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Convocação

O Globo, 02/04/1989, p. 1. Arquivo / Agência O GloboNas vésperas das eleições presidenciais, a maioria silenciosa da nação assiste, constrangida, ao espetáculo de perplexidade proporcionado pela elite política do país abrigada no PMDB e no PFL, largamente majoritários no Congresso e que, ainda no último pleito, alcançaram, em conjunto, mais de 40% dos votos.

A maioria dos brasileiros escolheu esses partidos não para vê-los acovardados diante da audácia de grupos minoritários que lhes têm imposto, não só a pauta dos debates, mas as próprias decisões. Não os fez intérpretes da sua vontade política — o mais grave e solene gesto de confiança — para vê-los, agora, perdidos em pequenas manobras, em que a esperteza tem foros de astúcia.

Sucedem-se encontros de governadores, senadores e deputados, nos quais ninguém confia em ninguém. Reuniões infindáveis são convocadas para que cada participante esconda do outro o seu pensamento. Postergam-se as decisões, forma confortável de ninguém correr risco e de todos resguardarem sua posição pessoal.

O PMDB realizou uma convenção para eliminar ambigüidades. Nunca, depois da convenção, foi tão ambíguo. A maioria, por sinal escassa, afastou uma considerável corrente de seu órgão de direção praticando injustificável apartheid, que condenará o partido a uma inevitável desagregação. Reconduziu-se à presidência o deputado Ulysses Guimarães, seu líder ao longo da travessia para o estado democrático, não para fazê-lo candidato mas, exatamente, para evitar a sua candidatura.

Oportunistas de todas as horas preparam-se para desertar. Um esquerdismo de ocasião determina os discursos e leva o partido a imitar o PT e o PDT Em lugar de diferenciar-se para disputar, acaba se confundindo com o adversário.

O PFL, de seu lado, apegado ao IBOPE do dia, corre o país atrás do candidato ideal. Senadores e deputados, de respeito e seriedade, curvam-se melancolicamente diante de figuras despreparadas, desde que apresentem razoáveis índices de popularidade. Sem encontrar o nome providencial, convidam o ex-ministro Aureliano Chaves. Para em seguida, com a maior desenvoltura, prosseguir na busca desesperada do salvador.

Está na hora do chamamento à responsabilidade. Ainda está em tempo de reverter o quadro. A maioria da população que condena a invasão de fábricas e a sabotagem às torres de distribuição de energia; que não aceita, em cada greve, a ação desembaraçada dos piqueteiros profissionais que coagem os trabalhadores; que está em desacordo com a arrogância e empáfia com que a CUT bloqueia qualquer entendimento de que possa resultar o controle da inflação e a elevação possível dos salários, por não se sentir representada na arena política.

Tem por isso mesmo, legitimamente, o direito de cobrar dos líderes do PMDB e do PFL uma proposta séria e consistente, uma candidatura de consenso que seja a intérprete da sua vontade política. Um candidato de renovação que não se enrede em manhas e combinações inaceitáveis. Um candidato que não fuja dos temas controversos e não faça do subterfúgio a suprema sabedoria política. Um candidato, afinal, com uma abordagem moderna e otimista dos problemas brasileiros, que devolva à nação o direito de sonhar com o futuro. E que lhe ofereça uma alternativa melhor que a de obrigá-la a escolher entre um projeto caudilhesco-populista e um outro sectário e meramente contestatório.

Esse dilema absurdo só está posto em virtude de se encontrar a classe política atingida por um acesso inexplicável de descrença na capacidade de reabilitação do país. A verdade é que os problemas nacionais são graves, mas podem ser enfrentados e resolvidos.

O Brasil não é uma republiqueta. É uma grande nação. Convençam-se os representantes da maioria de que é mais fácil a missão que lhes cabe de reprogramar com seriedade, racionalidade e espírito público as nossas atividades econômicas e sociais, do que a tarefa demolidora em que ora se acham embrenhadas as lamentáveis figuras do caudilho e do agitador candidatos, nos seus desvairados propósitos de tentar reduzir a estrutura nacional às suas pequeninas dimensões pessoais.

Que surja um gesto de grandeza e de coragem, uma convocação para a defesa dos nossos valores e para a retomada do desenvolvimento com justiça social. A resposta será imediata e irá refletir-se inapelavelmente nas urnas.

 

Roberto Marinho. O Globo, 2/4/1989