Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Grevismo desvairado

Existe hoje no Brasil nova forma de ação sindical: é o sindicalismo que se coloca em oposição à sociedade e a agride com violência. Assim busca demonstrar força política. Seu objetivo final é a desmoralização das instituições; seu grande adversário, o funcionamento normal do país; seu maior aliado, a apatia da classe política, das autoridades e da opinião pública.

Não há outra forma de definir a decretação de greves a qualquer momento, e para deflagração imediata, com absoluta indiferença pelos prejuízos ou vítimas que possam ficar em seu rastro — e pelos danos que causam às reivindicações econômicas e profissionais das categorias submetidas pela histeria radical a esse grevismo descontrolado.

A paralisação das linhas de trens urbanos do Rio na tarde de terça-feira — repetida ontem, durante algumas horas — é caso típico. Porque um único funcionário fora retirado por indisciplina da escala de serviço, a greve foi instantaneamente deflagrada. Os responsáveis não tinham o direito de ignorar as conseqüências de seu gesto: a indignação e o desespero de milhares de pessoas subitamente impedidas de voltar para casa ao fim do dia de trabalho.

O quebra-quebra era previsível. Como duvidar de que fosse igualmente desejado pelos chefes da greve? E impossível continuar a dar-lhes o nome de sindicalistas. Seu cínico desprezo pelo bem-estar do povo e a rapidez com que se apossaram de um pretexto para fomentar os distúrbios obrigam-nos a chamá-los, simplesmente, de terroristas políticos.

Estratégia equivalente foi adotada, ao mesmo tempo, bem longe do Rio. Em Recife, médicos em greve ameaçaram o governo Miguel Arraes com represália inominável: a suspensão do trabalho no atendimento de emergência e na unidade de terapia intensiva de um hospital.

A ocupação de fábricas pela força, a destruição de bens públicos, a seguida interrupção dos serviços mais essenciais — todos esses fatos recentes ultrapassam os limites do que se possa entender como um processo reivindicatório normal. Mais se assemelham a etapas de um plano organizado de “quebra-quebra” das próprias instituições, destinado a impedir que a sociedade brasileira funcione segundo os padrões e parâmetros desejados pela maioria do povo.

Ante essa ameaça, é inadmissível que a classe política se mantenha em letárgica indiferença. Dela se exige a aprovação no Congresso da legislação prevista pela Constituição para a regulamentação do direito de greve em serviços essenciais. E ela precisa vir, baseada na constatação dos efeitos perniciosos do grevismo desvairado, para contê-lo antes que seja tarde.

E certo que esse terrorismo por via sindical é suicida: a história ensina que os arquitetos do caos são as suas primeiras vítimas. Mas a gravidade da situação não permite que se espere até que essa lição seja recebida pela minoria que aciona e comanda o grevismo — ou que a massa das categorias profissionais envolvidas se dê conta da armadilha em que está caindo.

Toda a sociedade, que parece hoje anestesiada — como se se sentisse impotente ante a maré anárquica —, tem o dever de reagir, em legítima defesa, e logo. No apenas cobrando de seus representantes eleitos o cumprimento de seu dever, como negando até mesmo a ajuda de sua indiferença àqueles que se revelam como seus inimigos declarados.

 

Roberto Marinho. O Globo, 06/04/1989